
Serpentine Gallery
Hans-Peter Feldmann
Uma das peças concebidas por Hans-Peter Feldmann para a exposição na Serpentine Gallery, Shadow Play (2009), e apresentada na Bienal de Veneza, em 2009, consiste em sete focos de luz direccionados para uma parede. Entre os candeeiros e a parede está um conjunto de objectos (brinquedos, copos, facas, pequenas estátuas, etc.) em movimento. A silhueta destes objectos é projectada sobre a superfície da parede inúmeras vezes. A peça no seu conjunto parece remeter para a alegoria da caverna. Esta abordagem posiciona-nos, como observadores, na condição racional.
A visão depende da reflexão dos raios de luz na superfície do objecto atingir os olhos. Desta forma, percebemos e construímos o mundo. A mente humana só consegue perceber o mundo que a rodeia através da mediação simbólica, seja religiosa, mitológica, na arte, ciência ou na linguagem. A perspectiva linear, uma forma simbólica determinada culturalmente, é a racionalização de uma impressão visual subjectiva. O mundo actual é um mundo onde a visão governa. Na pintura até ao século XIX, na fotografia desde 1836, e nos filmes, televisão, computadores, por exemplo, desde o século XX. A janela que retrata duma forma espacial a impressão do mundo é autocrática. Se, por um lado, a perspectiva linear só consegue reproduzir, a percepção de um olho, de cada vez, quando nós vemos com dois, por outro, algo se perder entre as cristas da onda de luz. E algo é excluído, ou incluído, pela pirâmide invertida de linhas curvas que define a perspectiva linear. O visual não 'reflecte' o mundo. É uma forma de 'interpretação' visual. Na exposição, esta condição é apresentada com uma disposição cacofónica, um Kunstkammer de objectos visuais recolhidos por Feldmann. Fotografias, livros, esculturas, instalações e pinturas sobrepõem-se, confundem-se e sucedem-se uns aos outros pelos espaços da galeria. Circunstâncias que têm vindo a ser o normal nas exposições apresentadas na Serpentine Gallery, como foi o caso da retrospectiva da obra da artista brasileira, Lygia Pape, entre Dezembro de 2011 e Fevereiro de 2012. A excepção, óbvia, era a sala com a Tteia, dada a sua condição física.

Ao emergir de uma tradição Pop, o trabalho de Feldmann reflecte, com um sentido de humor muito próprio, sobre a comodificação do quotidiano e dos elementos desse mesmo quotidiano. As séries, o processo, o arquivo, a fotografia encontrada, a imagem mediada. O banal e a transformação destes objectos e assuntos em classificações com valores e capitais distintos. Ele subverte com uma feição irónica as fundações da sociedade contemporânea burguesa e questiona as estratégias conceptuais apresentadas através dos Readymades e performances Situacionistas. Se, por um lado, Hans-Peter Feldmann é um precursor no uso e apropriação de imagens (começou a sua carreira artística nos finais da década de sessenta), como o fazem desde a década de 80s, Sherrie Levine, Christian Boltanski ou Richard Prince quando questionam a autenticidade da fotografia ao se apropriarem de imagens concebidas por outros, escarnece, por outro lado, a sociedade do espectáculo, conforme é analisada por Guy Debord, que sustenta que a sua função é fazer com que a História seja esquecida dentro da Cultura. Com o emergir de uma cultura dominada pela imagem, o espectáculo é de tal forma essencial na cumulação de capital que se transforma numa imagem. E um dos princípios básicos na constituição de riqueza é a condição de acumulação. Na sociedade do espectáculo o que nos é vendido é a imagem, e não o objecto. Contudo, apesar dos trabalhos de Feldmann serem vendidos em galerias por todo o mundo, pontualmente surgirem em leilões, ele não limita o número das edições, nem assina obra produzida.

Durante mais de cinquenta anos a arte de Feldmann tem mantido a mesma forma: uma mistura de imagens encontradas e fotografias tiradas por ele. Dispostas em série ou ao acaso são publicadas como livros. Um índex cronológico começado a ser construído entre 1968 e 1971. Os livros – intitulados de Bild ou Bilder (Imagem ou Imagens) e numerados – reproduzem, de uma forma barata, a preto e banco, imagens vernáculas retiradas de jornais, revistas, catálogos de compras, livros ou postais. Uma imagem por página, sem texto. Muitas destas imagens são-nos familiares, como os joelhos de mulheres ou um avião a voar. Fazem parte do nosso consciente diário e não damos conta da sua existência. Hans-Peter Feldmann apresenta-as e faz com que o foco da nossa atenção seja sobre o que possam significar. Os livros, apesar do sua qualidade opaca, tornaram-se, entretanto, documentos seminais no desenvolvimento de uma abordagem conceptual na fotografia.

A vida, tal como a concebemos, presentemente, é regida pelo incomensurável arquivos de imagens que consigamos reunir. É o nosso capital. A primeira condição, na construção de um arquivo é a de que o espaço social contemporâneo é caracterizado por ser um microcosmos de arquivos. E a segunda é a de que estamos habituados à ausência de harmonia entre mundos, imagens e arquivos na forma como vivemos o nosso quotidiano. Contudo, tudo está metido dentro do mesmo saco ou projectado sobre a superfície da uma parede.
Hans-Peter Feldmann na Serpentine Gallery até 3 de Junho de 2012
All imagens: Hans-Peter Feldmann Installation view, Hans-Peter Feldmann Serpentine Gallery, London (11 April - 5 June 2012) © 2012 Jerry Hardman-Jones
Published at Molduras: as artes plásticas na antena 2: Hans-Peter Feldmann.
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