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Wednesday, 17 February 2010

JustMadrid

Carlos Urroz fala da nova feira dos valores «emergentes» na arte contemporânea.

Noutro lado da cidade de Madrid, e dada a importância crescente que a fotografia está a adquirir no mercado da arte, Henrique de Polanco – a família Polanco é detentora do Grupo Prisa, o maior conglomerado de meios de comunicação de Espanha e Portugal (onde é um dos accionistas de referência no grupo Media Capital) – apresentou em Maio de 2009 a MadridPhoto, e, para este ano, arranca com a Just Madrid, a 18 de Fevereiro de 2010, um dia após a inauguração da ARCOmadrid. Em conversa com o responsável pela comunicação da feira, Carlos Urroz, procurou-se perceber qual o enquadramento desta nova manifestação comercial artística.

Do ponto de vista do investimento, quais são as qualidades do mercado da arte?
É um momento para observar os artistas, ver como evoluem os que surgiram nos anos noventa e ver quais se mantêm ou não. Dado o preço de alguns artistas de quarenta anos, muitos coleccionadores estão a orientar-se na procura de novos artistas que, mantendo-se avaliados por comissários e instituições, ainda não entraram na especulação do mercado.

Quais são as especificidades da paisagem artista espanhola e ibérica?
Existe em Espanha todo um circuito de museus regionais que ajudam os artistas ditos «emergentes». É fácil a um artista ter uma carreira estável durante cinco anos ao transitar por salas e bolsas de instituições espanholas e conseguir uma galeria profissional com a qual trabalhe durante esses anos. O difícil para os artistas portugueses e espanhóis é saltar para o circuito internacional e poder competir com artistas que trabalham com museus por todo o mundo.

O que distingue a JustMadrid de outras feiras de arte contemporânea de Espanha e internacionais?
A JustMadrid é uma feira pequena e comissariada. Uma directora artística seleccionou as galerias e os artistas que estas representam. Também foram convidados sete grupos de curadores de todo o mundo para trabalhar com estes artistas. Pelo perfil dos artistas, será uma feira acessível, onde se pode encontrar obras com as quais é possível começar uma colecção ou encontrar um artista que se pode seguir posteriormente durante a sua carreira.

Como vê o potencial da JustMadrid para a evolução do mercado espanhol?
É um projecto complementar à ARCO, o qual permite ás galerias ditas «emergentes» apresentar artistas com um grande potencial a comissários e coleccionadores. Além disso, os preços são acessíveis e a quantidade de informação que a feira oferece é limitada a 25 galerias, com um máximo de setenta e cinco artistas. É abrangente e especializada, e os coleccionadores, além da feira de Basileia, optam cada vez mais por estes formatos.

Para a primeira edição, qual é a experiência pela qual podermos passar na JustMad 2010?
Uma experiência agradável. Numa tarde há poucos artistas para ver, pré-seleccionar e – confiamos – comprar alguns deles. Além disso, a localização é fantástica: uma nave do século XIX, a poucos metros do Reino Sofia e do Matadero.

Published at NS'214/IN#110, Destaque (54-55), (Diário de Notícias N.º 51446 e Jornal de Notícias N.º 257/122), 13 de Fevereiro de 2010, Portugal. Sara & André, www.specificthings.com e www.hotelbedjump.net (da serie Claimetofameonline), 2009. Courtesy Galeria 3+1 Arte Contemporânea, Lisboa

Tuesday, 16 February 2010

Madrid capital ibérica da arte

A ARCOmadrid apresenta-se com uma atitude mais virada para o mercado e com uma programação claramente direccionada para demonstrar a importância dos curadores no mundo actual. Este ano, pela primeira vez, o convidado especial é uma cidade: Los Angeles.

Em Fevereiro, Madrid converte-se na capital do mundo da arte com a realização simultânea de cinco feiras dedicadas à promoção e difusão da arte contemporânea. Todavia, o que realmente importa em Madrid são as exposições no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia dedicadas ao artista Thomas Schütte, no Museu Thyssen-Bornemisza sobre Monet e a Abstração, e a retrospectiva dos últimos 25 anos de Miquel Barceló, na Caixaforum Madrid.

No período actual, é visível por todo o mundo a disseminação de feiras de arte e a sua fragmentação em áreas mais específicas do mercado. Feiras realizadas em zonas periféricas, dedicadas à arte emergente contemporânea ou à fotografia são alguns dos exemplos de nichos de mercado procurados por múltiplas manifestações de índole comercial: Espacio Atlántico (feira de arte contemporânea), em Vigo; JustMadrid (feira dedicada à arte contemporânea emergente) ou MadridPhoto (dirigida para um novo tipo de coleccionismo, em que se promove, difunde e vende a imagem fotográfica, um segmento de mercado cada vez mais especializado), as duas últimas na capital espanhola.

Apesar dos conflitos existentes desde sempre entre quem organiza uma feira e os galeristas presentes (ou não) devido aos critérios de selecção – este ano não foi excepção –, a ARCOmadrid apresenta-se com uma atitude mais virada para o mercado e com uma programação claramente direccionada para demonstrar a importância dos curadores no mundo actual – como se os curadores conseguissem manobrar e conduzir uma feira para fora do seu meio natural, o do mercado.

A nível nacional, a dupla Filipa Oliveira + Miguel Amado assinalam presença no programa Curators’ Desks, da JustMadrid, com um projecto em que se articulam dois momentos distintos, num dos quais os artistas são seleccionados através de uma open call internacional.

Durante os últimos anos, a ARCOmadrid, através do programa Panorama, procurou apresentar à comunidade ibérica os principais epicentros criativos da cena artística mundial, enquanto impulsionava a dinamização do mercado e da própria feira ao convidar anualmente um país. Este destaque anual trazia a Madrid a diversidade de um mercado criativo em particular – como a Índia (2009), Brasil (2008), Coreia do Sul (2007), Áustria (2006), México (2005) ou mesmo Portugal (1998), que sucedeu à Alemanha e à América Latina –, bem como todo um universo composto por coleccionadores e especuladores que se identificam como coleccionadores e que vieram ampliar a carteira de clientes às instituições espanholas.

Em 2009, uma decisão tomada pelos organizadores fez recair não sobre um país mas sobre uma cidade – Los Angeles (EUA) – o lugar de visibilidade para a edição deste ano. Através de uma selecção de 17 galerias, realizada por Kriz Kuramitsu (comissária independente) e Christopher Miles (artista, comissário e crítico), procura-se «retratar de forma mais homogénea a vitalidade artística que concentra uma determinada área que, por si só, constitui um dos grandes centros de arte dos Estados Unidos».

Num ano em que os múltiplos indicadores do mercado da arte apresentam os primeiros dados de uma recuperação da crise, espera-se desta forma conseguir atrair muitos coleccionadores norte-americanos, de grande interesse e disponibilidade económica, ao mercado europeu e, em particular, a um mercado encerrado sobre si mesmo: o ibérico. Como diz a directora da ARCOmadrid, Lourdes Fernández, «a ideia de incluir cidades vai-nos abrir novas possibilidades, e vai trazer mais para o nosso mercado por tratar-se de uma ideia mais definida do que convidar a todo um país.»

Se galeristas como, por exemplo, Pepe Cobo (Madrid), deixaram de perseguir durante os últimos tempos o esgotado formato expositivo de stands em feiras de arte substituindo-o por uma abordagem mais interventiva, através de projectos específicos, os galeristas portugueses, que anteriormente defendiam a sua presença em feiras internacionais como factor de contribuição para a internacionalização dos artistas e da arte portuguesa, este ano derivaram as suas atenções para manifestações secundárias e efémeras no plano ibérico. Ou, por outro lado, concentraram a sua atenção em múltiplos programas específicos existentes nas feiras: Carlos Carvalho e Filomena Soares, de Lisboa, a Galeria Mário Sequeira, de Tibães (Braga), continuam presentes no Programa Geral da ARCOmadrid 2010; a Fonseca Macedo, de Ponta Delgada, apresenta-se na ARCO 40 também da ARCOmadrid; na recentemente criada, JustMadrid podem ser encontrados os stands das galerias 3+1 Arte Contemporânea e Miguel Nabinho, ambos de Lisboa.

A selecção de artistas por comissários internacionais para apresentar projectos na feira reúne mais um conjunto de galerias nacionais: Nuno Sousa Vieira (Graça Brandão, Porto/Lisboa), Filipa César (Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa), André Romão (Baginski, Lisboa), Mauro Cerqueira (Reflexus Arte Contemporânea/Graça Brandão, Porto) e Noé Sendas (Fernando Santos, Porto) na secção «Instalaciones»; Wood & Harrison (Vera Cortês Art Agency, Lisboa) na secção «Vídeos»; e Jakub Nepras (Arthobler, Porto) complementam a presença nacional.

De igual forma é interessante registar a ausência do galerista Pedro Cera (Lisboa), actual presidente da direcção da Associação Portuguesa de Galerias de Arte. Depois das exclusões de Pedro Reigadas (Arte Periférica) e Rui Brito (111) – anteriores presidentes da direcção da APGA –, será legitimo considerar que existem interesses divergentes e inconciliáveis entre ser presidente da representação nacional de galeristas e a participação na mais importante feira ibérica?

Published at NS'214/IN#110, Destaque (54-55), (Diário de Notícias N.º 51446 e Jornal de Notícias N.º 257/122), 13 de Fevereiro de 2010, Portugal. André Cepeda, Illinois e Riverside Dallas (da série River), 2008. Courtesy Galería Ad Hoc, Vigo; Christine Streuli, Surr, 2009. Courtesy Mark Müller, Zurique; Federico Herrero, Orejas, 2009. Courtesy Juana de Aizpuru, Madrid; John Wood and Paul Harrison, One More Kilometre, 2009. Courtesy Vera Cortês Art Agency, Lisboa; Mariana Palma, Untitled, 2009. Courtesy Casa Triângulo; Manuel Caeiro, Untitled, 2009; José Lourenço, Untitled, 2009; e Ricardo Angélico, Rest in Pieces, 2009. Courtesy Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Lisboa.

Wednesday, 18 November 2009

Duas visões sobre o mercado da arte em Portugal

Arlete Alves da Silva
«esta é uma boa altura para investir em arte»


A
Galeria 111, com uma actividade ininterrupta desde 1964, é uma das mais antigas no mercado nacional. Com dois espaços em Lisboa e um outro no Porto, a galeria representa artistas conceituados como Paula Rego ou Graça Morais. Entretanto, Maria Arlete Alves da Silva e Rui Brito, directores da galeria, também estão associados a artistas com um percurso já estabelecido no mercado artístico, como Rigo 23 ou Fátima Mendonça. Mas provavelmente o seu maior desafio passa por apresentar jovens artistas, como são Gabriel Abrantes (Prémio EDP – Jovens Artistas 2009), Francisco Vidal ou Samuel Rama, num programa de artistas consagrados e estabelecidos.

Questionada sobre o recente boom e o posterior crash do mercado artístico no presente contexto económico, Maria Arlete Alves da Silva respondeu:

«Esta é a minha quarta crise. A primeira grande crise foi com o 25 de Abril. Nos anos anteriores, a par do investimento bolsista, as obras de arte tinham tido uma grande valorização, porque dada a melhoria económica do país começaram a aparecer coleccionadores e, pela primeira vez, havia um mercado de arte. Nesta crise tanto a Bolsa como a Arte tiveram um colapso. Nos tempos que se seguiram, as perdas no investimento bolsista foram irreversíveis mas as obras de arte, que também sofreram os seus revezes, passado algum tempo tiveram uma valorização enorme.

Anos depois (anos 80 e anos 90) tudo se repete na Arte e na Bolsa, depois de períodos de euforia seguem-se períodos de depressão. E mais uma vez estamos a enfrentar uma nova crise. Este é um bom momento para reflectir sobre o investimento na arte. Nos últimos tempos as obras de arte foram tratadas como um produto financeiro e alvo de todo o tipo de especulações por parte de artistas, galeristas e leiloeiros. Todos nós assistimos a verdadeiras operações de marketing, que culminaram no famoso leilão das obras de Damiem Hirst [Beautiful Inside My Head Forever realizou-se nos dias 15 e 16 de Setembro de 2008 na Sotheby’s de Londres]. Formaram-se empresas para adquirir as suas obras e o próprio artista também integrou o núcleo de compradores. Tudo apoiado por uma enorme campanha publicitária. Aparentemente, as obras atingiram preços exorbitantes mas a realidade parece ser bem diferente. Este forçar do mercado é altamente prejudicial. Este artista atingiu preços que nos anos mais próximos não terão mercado.

Em Portugal não houve exageros tão grandes. Há artistas e galeristas que aumentaram as cotações acima da valorização normal e esses vão ter que fazer ajustamentos mas, na sua maioria, prevaleceu o bom senso.

É pois uma boa altura para investir em arte. Nas três vertentes – imobiliário, Bolsa e arte – esta é a que está menos sujeita a flutuações. Quando bem escolhida é o investimento mais seguro e rentável que existe. Não se deve esperar uma rentabilidade imediata sobretudo se se investe em jovens artistas. Ao fim de dez anos há normalmente uma grande valorização.

Maria do Carmo Oliveira
«os artistas com quem trabalho são inspiradores»

A galeria MCO Arte Contemporânea surgiu no Porto em Outubro de 2005. Ao dirigir essencialmente a sua programação para a arte emergente e experimental a directora da galeria, Maria do Carmo Oliveira, criou um espaço que está a marcar a diferença no universo artístico nacional pela sua originalidade, ao promover uma nova geração de artistas radicados no grande Porto, como Arlindo Silva, Fabrízio Matos ou Sofia Leitão, entre muitos outros.

Quando é que percebeu que queria ser galerista?
Em 2005, ano em que abri a galeria.

Qual foi a sua primeira grande venda?
Para mim todas as vendas são significativas.

Qual o seu pior momento como galeristas?
Tenho uma memória muito selectiva e por isso guardo apenas os bons momentos.

Quais os artistas que a inspiram?
Todos os artistas com quem trabalho são inspiradores, pois são criativos, trabalhadores e sérios e por isso fazemos um trabalho de inspiração e admiração mútua.

Que conselho daria a um jovem artista em início de carreira?
Trabalho, trabalho e mais trabalho.

O que são para si as Feiras de Arte?
São eventos essencialmente de promoção dos artistas e da galeria, onde se se tiver sorte talvez se vendam alguns trabalhos.

Published at NS'201/IN#097, Destaque (53-55), (Diário de Notícias N.º 51357 e Jornal de Notícias N.º 166/122), 14 de Novembro de 2009 Portugal © Martinho Costa, Space Shuttle (óleo sobre tela, 58x46cm), 2009 Courtesy: Galeria 111 e © Fabrízio Matos, Fragmentos de Diana (aguarela sobre gesso, 57x57cm), 2009 Courtesy: MCO Arte Contemporânea

Arte Lisboa, a invasão espanhola

O certame inscreve-se no panorama ibérico das feiras de arte ao concorrer directamente com as feiras-satélites da ARCOmadrid, que se realizam por toda a Espanha.

Algumas das galerias de arte nacionais mais representativas e dinamizadoras das novas tendências no mercado artístico, como a Galeria Pedro Cera (Lisboa) ou a Galeria Graça Brandão (Porto e Lisboa), e galerias representativas de artistas considerados de valores seguros no mercado, como a Mário Sequeira (Tibães, Braga) ou a Fernando Santos (Porto) não vão estar presentes na Arte Lisboa 2009 – Feira de Arte Contemporânea. Jovens galerias como a Caroline Pagès Gallery e a Marz, ambas de Lisboa, preferem apostar directamente no mercado internacional. Outras galerias, como a Cristina Guerra – Contemporary Art ou a Vera Cortês Agência da Arte, também têm posições distintas da Arte Lisboa.

Em 2001, a feira de arte contemporânea de Lisboa organizada pela APGA (Associação Portuguesa de Galerias de Arte) passou a estar sob a incumbência da FIL (Feira Internacional de Lisboa), através da AIP (Associação Industrial Portuguesa). Esta alteração na estrutura organizativa visava consolidar este evento como um certame internacional equiparável à feira de Madrid, a ARCO. Contudo, esta transformação da estrutura organizativa provocou de imediato mudanças nos critérios de selecção – os quais passaram a ser definidos por uma Comissão Consultiva, presidida pela AIP, e, entre outros, integrava o presidente da APGA. Também foi criado um regulamento e foram estabelecidos novos critérios de avaliação das candidaturas. Uma das consequências desta mudança foi a exclusão de muitas galerias nacionais, que, de acordo com a Comissão Consultiva da feira, não apresentavam os requisitos mínimos exigidos.

Com a dissolução da noção de nacionalidade e das fronteiras na sociedade contemporânea, actualmente a Arte Lisboa inscreve-se no panorama ibérico das feiras de arte, ao posicionar-se e concorrer directamente com as múltiplas feiras-satélites da ARCOmadrid, que se realizam por toda a Espanha, como o Foro Sur (Cáceres), a Arte Salamanca ou a Valencia Art. Para a AIP, «a mais interessante novidade desta edição é a forte participação de galerias espanholas». De um conjunto de 67 galerias, 33 são portuguesas e 31 espanholas. Em 2001 estiveram representadas 28 galerias espanholas e 26 galerias portuguesas.

De salientar três aspectos: o centralismo exacerbado nacional (Lisboa e Porto, com a excepção da Mário Sequeira, de Tibães (Braga), da António Henriques, de Viseu, e da Fonseca Macedo, da Ponta Delgada, Açores), confrontado com a periferia espanhola – um elemento caracterizador da Arte Lisboa –, este ano está mais diluído através da presença de espaços localizados no Estoril, Aveiro e Leiria. Ao contrário de Portugal, a participação espanhola em feiras internacionais é apoiada pelo instituto de espanhol responsável pela acção cultural exterior, o equivalente cultural espanhol da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). A participação de outros países na feira nacional é considerada redundante para esta contabilidade.

Published at NS'201/IN#097, Destaque (53-55), (Diário de Notícias N.º 51357 e Jornal de Notícias N.º 166/122), 14 de Novembro de 2009 Portugal © João Pedro Vale, Barometz (Suelly Cadillac), 2006 Courtesy: Galeria Filomena Soares and © Arte Lisboa 2007, Santos Almeida Courtesy: Arte Lisboa

Tuesday, 22 September 2009

Joana Vasconcelos, entre o luxo e o banal

A arte de transfigurar objectos banais do nosso quotidiano

Desde o início da sua carreira, as peças de Joana Vasconcelos reexaminam noções de criação, autoria e, de forma singular em Portugal, dão nas vistas pelo uso de objectos do quotidiano «reciclados» em obras de arte.


Os trabalhos de Joana Vasconcelos (Paris, 1971) lidam com a esfera inter-humana, as relações entre pessoas, comunidades, indivíduos ou grupos sociais. Conforme diz a artista, «as panelas são etnografia portuguesa? Não! Os talheres de plástico? Também não! São produtos culturais de uso corrente, são as formas conscientemente ignoradas do nosso quotidiano». Ou seja, ao invés de elaborar formas com base em matéria-prima, o material que manipula não é primário, ela trabalha com objectos já em circulação no mercado cultural, objectos informados por outro objecto.

O curador e crítico de arte francês Nicolas Bourriaud no livro Pós-produção (Postproduction, 2002) defendia que as noções de originalidade (estar na origem de) e de criação (fazer qualquer coisa do nada) estavam a diluir-se numa actividade de pós-produção. Um agenciamento no qual as misturas praticadas pelos DJ eram o exemplo por excelência deste contexto cultural contemporâneo, ao manipular e inserir novas transições nos fluxos de informação sonora pré-existentes. O DJ é uma pessoa que usa fragmentos de músicas gravadas para fazer novas composições. «A ideia do DJ é uma ideia que tem a ver com ir buscar coisas, outras composições musicais, por exemplo. Um DJ vai buscar uma música à história da música e faz uma nova composição enquanto a inscreve numa nova classificação musical. Eu não vou buscar obras de arte de ninguém mas sim objectos banais do nosso quotidiano», diz Joana Vasconcelos.

Neste âmbito, qual é a diferença entre o que faz e o que fazem os DJ’s?
Os DJ misturam uma coisa com outra coisa e o resultado é um novo produto musical em relação aos anteriores. Eu não faço misturas, eu pego num objecto – um sapato ou panelas, que não são de ninguém, são objectos do quotidiano público, não são objectos autorais, não são objectos com identidade histórica, ou um castiçal, por exemplo, pois se tu olhares o projecto do castiçal [Néctar, 2006, feito em ferro metalizado e cromado, LED de alta intensidade e garrafas de vinho], as garrafas são do mais normal e o castiçal é uma ideia de um objecto –, num conceito-tipo e com um material particular faço uma outra coisa posicionada fora do seu enquadramento histórico inicial. Assim, o que existe é o desenho de um novo conceito para um objecto de uso impregnado na cabeça como um objecto tipo. Eu não misturo os componentes, não altero a sua fisionomia, a sua identidade, o seu conceito, ou os transformo noutra coisa. O que eu transformo são as ideias concebidas pelo comum sobre um determinado objecto.

Ou seja, aproprias-te de objectos do imaginário comum não inscritos na etnografia nacional oficial e dota-os de um outro objecto, por exemplo, enquanto manténs as suas propriedades originais...
As minhas peças transformam a ideia fisicamente enquanto criam uma individualidade própria. As coisas existem sobrepostas, justapostas, não as estrago, não as corto, não as altero, não lhes mudo a identidade. Pelo contrário, eu afirmo a identidade de cada objecto, não são uma mistura. É exactamente o oposto dos DJ. Estes alteram a identidade ao transformá-la noutra coisa. Alteram o produto original, eu não. E isto é uma particularidade do meu trabalho.

Por outro lado, também não vou buscar coisas com muita identidade. Vou buscar coisas com uma identidade muito aberta, do domínio público, e que, na verdade, eu personalizo e a que eu dou uma identidade própria. É como se estes objectos tivessem perdido a sua identidade inicial e passassem a ter uma identidade especial. Por exemplo, o coração de Viana [Coração Independente Amarelo, 2004, feito em ferro pintado e talheres de plástico translúcido], é um objecto banal construído com objectos banais e, no entanto, é uma jóia hiperluxuosa. Ao fazer o coração de Viana em talheres de plástico estou a fazer um objecto banal, uma banalidade.

Mas o que é que faz a alteração?
O que faz é destruir conceitos preestabelecidos, é deslegitimar o institucionalizado e desestruturar a ordem entretanto criada. O trazer do privado para o público, ou do público para o privado, o trazer de um nível social abaixo para outro mais elevado. Ao alterares os paradigmas conceptuais e revolucionares a distribuição do sensível, as pessoas questionam-se sobre o que é plausível: a filigrana de Viana de Castelo é de ouro ou prata, mas agora é de plástico? Depois surge a ideia de se este objecto é merecedor da ideia de luxo. Porque o luxo está associado a certos tipos de matérias categorizadas pela sua raridade, principalmente. De repente aquilo, aquele objecto, simboliza o luxo por ser feito de plástico. Essencialmente saímos dos guetos conceptuais entretanto construídos, democratizou-se a arte e o acesso à arte.

O meu trabalho tem a ver com a massificação, com essa ideia de que tudo é consumido. Portanto, eu vou buscar os produtos que menos valor têm e que são consumidos por um maior número de pessoas e transformo-os em peças de luxo (com um valor económico no outro extremo), ou seja, eu passo do hipermercado para o museu.

Os teus objectos são formas que questionam as formas sociais...
Questionam o principal «valor» que é o consumismo. As aspirinas [Sofá Aspirina, 1997, blisters de Aspirina] e a cama de valium [Cama Valium, 1998, blisters de Valium] são uma crítica ao consumo de drogas, de medicamentos. Por exemplo, as pessoas mais sensíveis a esta obra são as que têm ou tiveram um forte contacto com aquele medicamento. Falam de experiências pessoais muito fortes, revelam uma certa tensão consumista que tiveram com os produtos utilizados nas peças. As pessoas consomem e raramente são questionadas sobre o excesso de consumo, seja ele de álcool, de medicamentos, de roupas, etc... Consumimos tudo duma forma completamente alucinante. Neste contexto, as minhas peças «pegam» no que toda a gente consome. Não se considera que se consome panelas ou tampões mas, apesar disso, o maior consumo dá-se em objectos socialmente menos valorizados, os objectos banais, comuns, porque só se dá valor ao que é caro e raro. Curiosamente, a aspirina é talvez o medicamento mais consumido do mundo. A única coisa que faço é pôr o dedo no comum. E a essa questão é que as pessoas não estão habituadas. Estão, sim, habituadas a que ponhas uma T-shirt a dizer «eu quero uma aspirina» ou «dá-me um tampão». O consumismo desesperado dá-se muito mais na banalidade do que no luxo.

E onde é que as tuas peças se posicionam dentro do contexto contemporâneo?
De alguma maneira tem sido muito curioso viver com essa particularidade, da surpresa de as pessoas serem confrontadas com a sua própria banalidade e terem de dar valor a objectos de uso comum, como talheres de plástico, panelas, tampões, animais de loiça, gravatas, espanadores ou blisters de aspirinas. Nos sapatos [Priscilla, 2007, feito de tachos e tampas em aço inox], as mulheres que gostam de moda vêem um sapato de design, enquanto as mulheres que dão mais valor à família, aos aspectos tradicionais da sociedade portuguesa, que cozinham, por exemplo, fazem outro género de associações, vêem mais os diferentes tamanhos de tachos e panelas. São poucas aquelas que conseguem juntar as coisas e fazer outra interpretação, pois ou só querem ver uma coisa ou outra. Não estão muito interessadas em fazer analogias ou o que seja. É ficar entre o luxo e o banal, é um novo espaço. Criar um novo espaço onde intervenho, onde não faço crítica, e não desminto, fico nesse limiar. As minhas peças funcionam como uma ignição para questionar as nossas decisões e afirmações quotidianas.

Joana Vasconcelos nasceu em Paris, em 1971. É considerada uma das mais influentes artistas plásticas portuguesas da última década, com exposições em Portugal e no estrangeiro. Em Março de 2009, integrou a exposição colectiva «A Certain Stat of the World», no Garage Center for Contemporary Art, em Moscovo. Participou na Bienal de Veneza, em 2005, com a peça A Noiva (um candelabro composto por mais de 25 mil tampões). Recentemente, a peça Coração Independente Dourado foi vendida em leilão da Christie's por 129 mil euros. Em 2005 recebeu o prémio The Winner Tekes It All, atribuído pela Fundação Berardo, para a peça Néctar, e em 2000 venceu o Prémio EDP Novos Artistas. Tem formação em joalharia e trabalha a nível da escultura e instalações.

Published at NS'193/IN#089, Destaque (51-53), (Diário de Notícias N.º 51301 e Jornal de Notícias N.º 110/122), 19 de Setembro de 2009 Portugal © DMF (Direitos Reservados), Luís Vasconcelos, e Atelier Joana Vasconcelos

Wednesday, 20 May 2009

A crise do museu global

Num fim-de-semana dedicado aos museus – esta segunda-feira, dia 18 de Maio, comemora-se o Dia Internacional dos Museus –, Manuel Borja-Villel, director do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, de Madrid, Espanha, explica qual deverá ser a importância social, económica e cultural de um museu enquadrado pela noção de «museu global».

Como caracteriza o papel dos museus no mundo em que vivemos?
Vivemos numa época na qual o «trabalho», a economia, não é só de produção, é também de consumo. É uma época «pós-fordista», na qual o trabalho cognitivo tem uma centralidade nunca anteriormente conseguida. A informação e o conhecimento são muito importantes. Obviamente, os museus, a cultura e a arte são elementos cognitivos, formam parte desta nova estrutura económica, na qual adquirem também esta centralidade. Por outro lado, o «poder» é discursivo. O direito ao discurso não só reflecte o «poder», mas é o «poder» pelo qual se luta. O conhecimento, a cultura e os museus são estruturas discursivas. O museu não pode estar afastado dos vectores que movem a actualidade económica.

Quais são estes vectores económicos?
O negócio imobiliário; o turismo ou os fluxos de pessoas; a cultura do consumo ou do ócio. Nestes parâmetros, nesta estrutura económica, foram criados vários museus por razões instrumentais, os quais muitas vezes respondem mais a estas forças económicas do que a necessidades realmente culturais. Todos sabemos que, em algumas ocasiões, foram criados museus em lugares degradados como uma forma de «gentrificação», de «elitização», de fazer crescer o status económico e social de uma comunidade ou bairro. Também sabemos que os museus são estruturas de atracção turística. Por exemplo, o Guggenheim, em Bilbau [Espanha]. E, relacionado com esta componente imobiliária, a arte, a cultura e os museus – como o elemento mais estratégico nesta estrutura – serviram, de algum modo, como uma espécie de «lubrificante social» para acalmar tensões, suavizar as tensões que podem gerar-se em qualquer sociedade. Há uns anos quando existia um bairro marginal iam os sociólogos. Actualmente vão os artistas, curadores, etc.

Qual é a situação actual?
É uma situação, que, para mim, não é nada optimista. É uma situação onde a arte, a cultura, são sobretudo entendidas como elementos de conhecimento, e elementos do conhecimento que distinguem ideologias, a cultura mais curricular, mais canónica, de algo mais aberto. No entanto, o que esta estrutura faz, de algum modo, é dirigir a atenção para um contentor genérico onde tudo pode ser introduzido e não tem nenhum valor. Onde tudo é possível porque o sistema absorve tudo e é capaz de consumir tudo.

Neste sentido, sempre gostei de comparar dois livros: Mil Novecentos e Oitenta e Quatro [1949], de George Orwell, e Kingdom Come [2006], de J. G. Ballard. No livro de Orwell, no início, o protagonista começa a escrever, escondido, porque sabe que na sua casa o «Grande Irmão» está a ver. O facto de escrever, de ter uma actividade intelectual, é considerado um elemento revolucionário. E, por escrever, pode ser preso ou condenado à morte. Por isso tem de se esconder. Esta é a ideia moderna na qual acreditávamos. A cultura, o conhecimento, por si sós, podiam mudar a sociedade. Por oposição, há outra ficção, uma distopia, Kingdom Come, cuja narrativa ocorre num lugar muito autoritário, fascista. O protagonista pergunta ao seu chefe como é que naquele lugar tão autoritário não há censura. Pode-se escrever, falar, etc... Ao que o chefe lhe responde: «Não há censura porque não há nada que censurar, que dizer, porque tudo já foi transformado em mercadoria. Tu podes dizer o que quiseres que é um produto comerciável.»

O que se conseguiu com o sistema foi que o que havia de radical, de ruptura na arte moderna, é absorvido para um contentor cuja função tem mais a ver com o turismo, com o capital financeiro, com o imobiliário, tem a ver com processos sociais, mas tem pouco de ruptura, de conhecimento.

O que fazer?
Nesta situação há que ter em conta dois factores. O primeiro, mencionava-o Walter Benjamin, é que o conhecimento não significa nada. Há que dar o conhecimento como tal – é um peso que transportamos – aos espectadores, aos leitores, enquanto geramos estruturas que permitam desnudar, entender, estes tipos de conhecimento. O conhecimento em bruto é meramente ideologia. É importante saber que temos de criar estruturas que permitirão que esse contentor seja radical, seja transformador, por um lado e, por outro lado, sustentado por outro aspecto, como é explicado por Pasolini em Che cosa sono le nuvole? [1967], um filme no qual os actores são marionetas e representam Otelo, num teatro isabelino. O que Pasolini quer dizer é que o destino está marcado, como expresso na tragédia grega, na qual os filhos têm de pagar pelas culpas dos pais. É muito difícil separarmo-nos deste destino, a não ser que tenhamos um conhecimento poético e as ferramentas para que este conhecimento poético permita uma transformação. No filme, Otelo não quer matar Desdémona, e, no entanto, Desdémona quer que a matem porque é o que está escrito e lhe ensinaram. Quando existe esta tensão, a única possibilidade é a rebelião do público. Há um momento em que o público rompe as estruturas do teatro, salta para a cena e transforma o teatro isabelino numa farsa, num carnaval. O carnaval, como explicou o linguista russo Mikhail Bakhtin, é a transformação da sociedade. Nesta situação, e em resposta à tua questão, qual é a importância social, económica e cultural dos museus num mundo global? Temos de entender que os museus respondem a estas estruturas. Hoje em dia, a acumulação de conhecimento não quer dizer nada, pois a acumulação é só acumulação. Neste contexto a função dos museus é criar estruturas que permitam a rebelião do público,

Estamos a falar da «distribuição do sensível», no sentido em que é definida pelo filósofo francês Jacques Rancière...
Sim. Isto significa ter museus onde claramente se compreenda esta visão global. Museus onde importe trabalhar mais com as minorias do que com as massas turísticas. Que não tenhamos medo da diferença entre elite e populismo. Entre esta dualidade falsa, o que eu proponho é uma estrutura de múltiplas minorias. Uma estrutura em que cada minoria venha e antagonize as restantes.

Isto numa época em que os museus e a sociedade se convertem numa espécie de grande centro comercial, e onde o museu é o último centro a juntar-se a este edifício. De facto, o que os museus fizeram foi aprender com as grandes multinacionais como a Nike ou a McDonald’s. É o mesmo fenómeno, inclusivamente ao nível de baixar a qualidade. O McDonald’s é a degeneração da comida. Não é comida como «gosto» nem como «necessidade». É «aberração». Esta globalização dos museus é absolutamente o mesmo.

Nesta dicotomia, o que acredita ser necessário?
Os museus devem de ser espaços públicos. Isto é fundamental. O espaço público, a esfera pública, é a esfera de uma cidade. Ou seja, num momento em que estão a desaparecer e se estão a converter num grande centro comercial, os museus têm a obrigação de se transformarem em espaços públicos.

O que compreende por espaço público?
No sentido clássico, do filosofo alemão Habbermans, é um espaço de antagonismo. Onde existem múltiplas minorias e indivíduos que antagonizam e criam tensões. O espaço de consumo, o centro comercial, é um espaço de consenso. Portanto, não há censura, pois todos pensam o mesmo. Se todos pensam que a estrutura da cultura se baseia num Top 10, no que se consome mais, no que é mais popular, então, isto não tem nada a ver com a cultura.

É necessário criar este espaço público, entender que os públicos não são uma grande massa, mas múltiplos. Criar uma estrutura narrativa, não única, mas múltipla, que permita as múltiplas vozes, as múltiplas linguagens, de modo a poder explicar não só o que queremos dizer, mas o que o outro também tenha concluído com a sua estrutura mental, com a sua linguagem, ver a sua história incluída. As histórias dos museus são basicamente uma forma highlight, universal, única. No seu lugar, uma multiplicidade de leituras.

Ou seja, a transformação, de algum modo, do museu, de um lugar meramente de espectáculo, numa espécie de colégio – no sentido medieval da palavra, não neo-aristotélico, dos mosteiros como lugares de discussão, do conhecimento, de contemplação, lugares onde havia ritmos de vida muito complexos, que trabalhavam em rede uns com os outros. Desta forma, creio que estamos a entrar numa nova Idade Média, onde os museus podem possivelmente não ser como os concebidos até este momento. Podemos estar a entrar numa nova fórmula, entre colégio, universidade e museu – isto é o meu wishful thinking.

A minha hipótese é de que este tipo de museu global, este tipo de museu dedicado meramente aos turistas, vai entrar em crise. O resultado desta crise será uma espécie de nova idade de especialização da sociedade, onde espero que os museus, como centros de arte, tenham um papel importantíssimo.

Manuel Borja-Villel, 52 anos, foi director da Fundação Tàpies, em Barcelona, desde a sua criação, em 1990, até 1998, quando assumiu a direcção do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. É director do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, de Madrid, desde Janeiro de 2008. Um dos primeiros actos de Borja-Villel como director do Rainha Sofia foi reordenar o percurso dos visitantes em torno do quadro mais emblemático do museu: Guernica, pintado por Picasso em 1937. Entretanto, assegurou o empréstimo de vinte obras de Goya, pertencentes ao vizinho Museu do Prado, como elementos essenciais para a reorganização expositiva da colecção do Rainha Sofia, a inaugurar no final de Maio.

Published at NS'175/IN#071, Destaque (53-56), (Diário de Notícias N.º 51175 e Jornal de Notícias N.º 349/121), 16 de Maio de 2009 Portugal © MNCARS

Tuesday, 18 November 2008

Discussão e arte além da Feira

Ciclo de debates e secções paralelas interrogam a própria linguagem artística

A Feira ARTE LISBOA, em parceria com a ARTECAPITAL.NET, oferece um ciclo de debates concentrado em algumas ideias fortes: o coleccionismo de fotografia no mercado ibérico, a mundialização das feiras de arte, as novas formas de investimentos em arte e as virtudes e limites do pós-colonialismo na arte contemporânea. Este espaço de debate e confluência de ideias tem a participação de vários agentes artísticos: coleccionadores, galeristas, críticos, curadores, directores de museus.

Painting and other stories, linha orientadora e título da secção do Project Rooms, comissáriada este ano por Paco Barragán, reúne uma série de artistas que inquirem e interrogam o próprio meio pictórico: Rui Macedo, Rodrigo Oliveira, Fabrizio Matos, Inês Botelho, e Sara & André (Portugal); Toño Barreiro, Lídia Benavides, Chus Garcia-Fraile (Espanha); Ruth Root (Estados Unidos); e Steve Schepens (Alemanha).

Representado pela MCO Arte Contemporânea (Porto), Fabrizio Matos (1975) é um dos artistas incluído este ano no Project Rooms. Nas novas pinturas (1750 a dois mil euros) desenvolvidas por Fabrizio, somos confrontados com uma abordagem documental sobre a realidade de uma forma quase cinematográfica (anotações imobilizadas no espaço pictórico sobre as múltiplas possibilidades de abordagem relacional com a realidade). Espaços territoriais que nos fazem lembrar os horizontes e ambientes nos textos de Camilo de Castelo Branco, enquanto expressa o questionamento da realidade. As obras de Fabrizio estão posicionadas na confluência da ilusão inerente na obra de Manoel de Oliveira e da existência aristocrática nos finais do século XIX. Mas inscrita num contexto latente muito particular – no diálogo contínuo entre o movimento e o tempo.

Faca Meteórica, de 2008 (11 660 euros), foi uma das peças apresentada na exposição Meteorítica (Galeria Graça Brandão, Lisboa de 19 de Setembro a 1 de Novembro). A dupla João Maria Gusmão + Pedro Paiva (representados pela Galeria Graça Brandão) obrigam-nos frequentemente a movimentar-nos por entre as suas obras como um exercício antropocêntrico. Nomeadamente nos filmes em 16mm quase-arqueológicos espalhados no espaço. Onde, como participantes-observadores, somos obrigados a vaguear por entre diversas representações do mundo natural. Alternadamente somos e estamos inseridos na imagem através da ausência da própria imagem, mas como sombras. Ao nível da fotografia, Acerca do espírito da gravidade ou As Cobras Fossilizadas, 2007 (6960 euros) remetem-nos para testemunhas físicas, manifestações da nossa contínua presença na história.

Pedro Cabral Santo (1968) é representado pela VPF Cream Art (Lisboa). Quer através de vídeo ou instalações o percurso estético do artista debruça-se sobre questões relacionadas com o ‘devir da linguagem’. Nomeadamente sobre o excesso imagético caracterizador da sociedade contemporânea, ao procurar desconstruir a persistente ausência da capacidade de juízo. Recentemente, Pedro Cabral Santo expôs no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, o vídeo The ice cream from space #2 (2004-08) e a peça Ponto Azul (2008), inserido no ciclo de exposições de arte contemporânea, ‘The Return of the Real’ (19 de Julho a 4 de Outubro) e anteriormente o CAMJAP (12 de Março a 22 de Junho) apresentou a exposição individual ‘TILT’, onde estavam reunidas algumas da mais importantes do percurso do artista.

Published at NS'/IN, Destaque (51-54), (Diário de Notícias e Jornal de Notícias), 15 de Novembro de 2008 Portugal © Fabrizio Matos Courtesy The Artist

Aquisição de obras de arte é o refúgio dos investidores

Ivânia de Mendonça Gallo, directora da ARTE LISBOA, salienta o aumento de participação no certame

Do ponto de vista do investimento, quais são as características actuais do mercado internacional de arte?
O abrandamento da economia, a crise financeira ou a crescente insegurança noutros sectores que tradicionalmente captavam investimentos estão a conduzir os seus clientes e investidores a procurar outros destinos para diversificar as suas aplicações. Um desses “valores refúgio” que está a ter maior protagonismo é o da aquisição de obras de arte como investimento a médio-longo prazo.

A European Fine Art Foundation que organiza a feira The European Fine Art Fair (TEFAF), informou este ano, após a realização do evento, que as vendas praticamente duplicaram desde 2002.

Quais são as especificidades da paisagem artística nacional?
Portugal desenvolveu nos últimos anos uma paisagem artística complexa, onde não faltam instituições de formação artística de grande prestígio, uma rede bem articulada de galerias privadas e uma série de espaços públicos e privados vocacionados para a promoção e exposição de arte contemporânea nacional e internacional.

Qual é a vantagem diferenciadora da ARTE LISBOA quando comparada com outras feiras de arte contemporânea, internacionais?
A ARTE LISBOA é a única feira de arte contemporânea que se realiza em Portugal e o nosso modelo está dimensionado de acordo com o mercado nacional e muito próximo, em termos de regulamento, com as restantes feiras congéneres. Tem a particularidade de apresentar um maior número de galerias e artistas portugueses mas recebemos muitos visitantes estrangeiros, especialmente espanhóis. Somos uma feira exportadora da produção, neste caso, artística, nacional.

Está à frente da ARTE LISBOA desde 2005. Como percepciona a evolução do mercado artístico português nestes últimos anos? E de que forma a ARTE LISBOA potenciou a evolução do mercado nacional?
A ARTE LISBOA acompanha a evolução do sector, que cada vez é mais profissional, mais internacional e ambicioso. Há mais galerias portuguesas e mais centros de arte que criam oportunidades para a produção, apresentação e comercialização de obras de arte. Assistimos também a uma maior descentralização dos espaços nacionais dedicados à exposição de arte contemporânea, bem como a uma progressiva internacionalização do circuito artístico. Existem também mais coleccionadores interessados em adquirir peças de artistas contemporâneos, consagrados e emergentes e o principal objectivo da ARTE LISBOA tem sido suscitar o máximo interesse de novos compradores, de profissionais, do público em geral, de modo a que encontrem nesta feira de arte contemporânea, bem como no resto das actividades programadas para este encontro, uma excelente oportunidade para conhecer melhor a oferta da cena artística actual. Reúne as principais galerias portuguesas e tem constituído uma ocasião única para coleccionadores institucionais, privados e outros adquirirem obras de artistas com percursos consolidados e emergentes. Para os galeristas, as vantagens da sua presença na ARTE LISBOA são também evidentes, porque lhes oferece a oportunidade de impulsionar a sua actividade num evento que tem vindo a afirmar a sua qualidade e notoriedade junto dos coleccionadores e do público interessado na arte contemporânea nacional e internacional.

Para este ano, o que poderemos esperar da ARTE LISBOA?
A próxima ARTE LISBOA que iremos inaugurar no dia 19 de Novembro apresenta-se como a maior edição da sua história, com 70 galerias expositoras e numerosos eventos paralelos. Oferece um conjunto abrangente de galerias representativas da criação artística actual que se focalizam na apresentação de valores consagrados e jovens emergentes que recorrendo a suportes diversos, pintura, escultura, instalação, fotografia, vídeo, manifestam incontestável criatividade e valor artístico. Posso destacar ainda a apresentação de uma área de projectos com curadoria de Paco Barragán, que inclui obras encomendadas especificamente para a feira a um grupo de artistas portugueses e internacionais.

Published at NS'/IN, Destaque (51-54), (Diário de Notícias e Jornal de Notícias), 15 de Novembro de 2008 Portugal © Pedro Ramada Curto

Uma feira para juntar arte e economia

ARTE LISBOA 2008 mobiliza 70 galerias de arte contemporânea com uma selecção que representa uma aposta na qualidade criativa e valor artístico em vários suportes.

A oitava edição da Feira de Arte Contemporânea ARTE LISBOA, que se realiza entre os dias 19 e 24 de Novembro, no Parque da Nações, em Lisboa, deverá oferecer um patamar que envolve outras duas estruturas sociais – arte e economia – necessárias para a regeneração do contexto cultural vigente.

Este ano, a ARTE LISBOA, que se apresenta como a maior edição de sempre, tem uma selecção que representa uma aposta na qualidade criativa e valor artístico dos artistas nacionais e internacionais, em vários suportes. À participação das 70 galerias de arte contemporânea (45 galerias nacionais e 25 estrangeiras) alia-se um movimento inédito de inaugurações simultâneas nas galerias de arte de Lisboa. Dois acontecimentos privados dirigidos essencialmente aos cidadãos nacionais. Mas qual é o papel do Estado? De que forma está representado e participa na regeneração de uma área especifica da sua cultura? Os espaços museológicos estão mais uma vez ausentes, alheios às iniciativas da sociedade civil.

Apesar de ser um mercado concentrado geograficamente nos grandes centros, Lisboa e Porto (como é habitual e ocorre na grande maioria dos outros países), este ano associam-se na feira às mais importantes galerias de arte contemporânea nacionais 5 novos espaços expositivos: Art Form, Bernardo Marques, Leonel Moura, Pente 10, e Nuno Sacramento. De Espanha apresentam-se 21 propostas, enquanto o Brasil, Moçambique, Alemanha e a Coreia estão presentes com uma galeria cada.

Relativamente a anos anteriores, a ARTE LISBOA apresenta um crescendo quer em número total de galerias participantes, quer na quantidade de países representado: o ano passado estiveram presente 47 galerias nacionais e 19 internacionais; enquanto em 2006 a feira contou com a presença de 64 galerias representativas de 6 países (47 nacionais e 17 estrangeiras). Em 2007, a feira foi visitada por 17 554 pessoas, um decréscimo em relação a 2006, o qual registou o maior número de visitantes de sempre, a feira contou com a presença de 19 283 visitantes.

Published at NS'/IN, Destaque (51-54), (Diário de Notícias e Jornal de Notícias), 15 de Novembro de 2009 Portugal © Fernando Bermejo, vista de exposição Fernando Bermejo, na Galeria Del Sol ST. Art Gallery, 2008 Courtesy Arte Lisboa e Del Sol St. Art Gallery (Santander, Espanha)