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Wednesday, 6 July 2011

Breath in, breath out, breath in, ...

O corpo de trabalho desenvolvido originalmente, em 2010, para o Internationales Künstlerhaus Villa Concórdia (Bamberg, Alemanha), por João Leonardo (1974, Odemira) explora os resíduos do consumo contínuo e repetido de um vício, neste caso, do tabaco. A exposição encontra-se dividida em dois conjuntos: o primeiro conjunto, a fazer lembrar uma popular exposição com corpos dilacerados, fragmentados e fatiados. Definitivamente antagónico à perspectiva exacerbada, reflexa de uma sociedade puritana contemporânea em que a causa de todas as nossos doenças é o tabaco e o acto de fumar, o segundo conjunto é o de maior maturidade conceptual. As séries como Cigarette Filter Collection e Cigarette Paper Collection ou Calendar #24 e Prana evidenciam um trabalho mais elaborado. Neste conjunto, Leonardo, desenvolve e apresenta-nos uma exploração etnográfica, de cariz social, sobre as necessidades e dependências humanas. Uma indução sobre o sistema de ordenação do caos que governa a condição humana. O artista resgata, colecciona, separa, cataloga e reintroduz vários fragmentos encontrados na ruína do mundo. Cada espécime resgatado induz para a individualidade particular da sujeição aos vícios naturais que se impõem socialmente. Como o simples acto de respirar, o artísta recupera fragmentos de cigarros, beatas, cinza, caixas de cigarros de uma forma desmedida enquanto nos impõe o cheiro petrificado do tabaco.

One Hundred and Six Columns, Four Head and One Table, em exposição na galeria 111 (Lisboa) até 30 de Julho de 2011.

Wednesday, 18 November 2009

Duas visões sobre o mercado da arte em Portugal

Arlete Alves da Silva
«esta é uma boa altura para investir em arte»


A
Galeria 111, com uma actividade ininterrupta desde 1964, é uma das mais antigas no mercado nacional. Com dois espaços em Lisboa e um outro no Porto, a galeria representa artistas conceituados como Paula Rego ou Graça Morais. Entretanto, Maria Arlete Alves da Silva e Rui Brito, directores da galeria, também estão associados a artistas com um percurso já estabelecido no mercado artístico, como Rigo 23 ou Fátima Mendonça. Mas provavelmente o seu maior desafio passa por apresentar jovens artistas, como são Gabriel Abrantes (Prémio EDP – Jovens Artistas 2009), Francisco Vidal ou Samuel Rama, num programa de artistas consagrados e estabelecidos.

Questionada sobre o recente boom e o posterior crash do mercado artístico no presente contexto económico, Maria Arlete Alves da Silva respondeu:

«Esta é a minha quarta crise. A primeira grande crise foi com o 25 de Abril. Nos anos anteriores, a par do investimento bolsista, as obras de arte tinham tido uma grande valorização, porque dada a melhoria económica do país começaram a aparecer coleccionadores e, pela primeira vez, havia um mercado de arte. Nesta crise tanto a Bolsa como a Arte tiveram um colapso. Nos tempos que se seguiram, as perdas no investimento bolsista foram irreversíveis mas as obras de arte, que também sofreram os seus revezes, passado algum tempo tiveram uma valorização enorme.

Anos depois (anos 80 e anos 90) tudo se repete na Arte e na Bolsa, depois de períodos de euforia seguem-se períodos de depressão. E mais uma vez estamos a enfrentar uma nova crise. Este é um bom momento para reflectir sobre o investimento na arte. Nos últimos tempos as obras de arte foram tratadas como um produto financeiro e alvo de todo o tipo de especulações por parte de artistas, galeristas e leiloeiros. Todos nós assistimos a verdadeiras operações de marketing, que culminaram no famoso leilão das obras de Damiem Hirst [Beautiful Inside My Head Forever realizou-se nos dias 15 e 16 de Setembro de 2008 na Sotheby’s de Londres]. Formaram-se empresas para adquirir as suas obras e o próprio artista também integrou o núcleo de compradores. Tudo apoiado por uma enorme campanha publicitária. Aparentemente, as obras atingiram preços exorbitantes mas a realidade parece ser bem diferente. Este forçar do mercado é altamente prejudicial. Este artista atingiu preços que nos anos mais próximos não terão mercado.

Em Portugal não houve exageros tão grandes. Há artistas e galeristas que aumentaram as cotações acima da valorização normal e esses vão ter que fazer ajustamentos mas, na sua maioria, prevaleceu o bom senso.

É pois uma boa altura para investir em arte. Nas três vertentes – imobiliário, Bolsa e arte – esta é a que está menos sujeita a flutuações. Quando bem escolhida é o investimento mais seguro e rentável que existe. Não se deve esperar uma rentabilidade imediata sobretudo se se investe em jovens artistas. Ao fim de dez anos há normalmente uma grande valorização.

Maria do Carmo Oliveira
«os artistas com quem trabalho são inspiradores»

A galeria MCO Arte Contemporânea surgiu no Porto em Outubro de 2005. Ao dirigir essencialmente a sua programação para a arte emergente e experimental a directora da galeria, Maria do Carmo Oliveira, criou um espaço que está a marcar a diferença no universo artístico nacional pela sua originalidade, ao promover uma nova geração de artistas radicados no grande Porto, como Arlindo Silva, Fabrízio Matos ou Sofia Leitão, entre muitos outros.

Quando é que percebeu que queria ser galerista?
Em 2005, ano em que abri a galeria.

Qual foi a sua primeira grande venda?
Para mim todas as vendas são significativas.

Qual o seu pior momento como galeristas?
Tenho uma memória muito selectiva e por isso guardo apenas os bons momentos.

Quais os artistas que a inspiram?
Todos os artistas com quem trabalho são inspiradores, pois são criativos, trabalhadores e sérios e por isso fazemos um trabalho de inspiração e admiração mútua.

Que conselho daria a um jovem artista em início de carreira?
Trabalho, trabalho e mais trabalho.

O que são para si as Feiras de Arte?
São eventos essencialmente de promoção dos artistas e da galeria, onde se se tiver sorte talvez se vendam alguns trabalhos.

Published at NS'201/IN#097, Destaque (53-55), (Diário de Notícias N.º 51357 e Jornal de Notícias N.º 166/122), 14 de Novembro de 2009 Portugal © Martinho Costa, Space Shuttle (óleo sobre tela, 58x46cm), 2009 Courtesy: Galeria 111 e © Fabrízio Matos, Fragmentos de Diana (aguarela sobre gesso, 57x57cm), 2009 Courtesy: MCO Arte Contemporânea

Sunday, 22 February 2009

Mara Castilho

Galeria 111 (Lisboa)
Mara Castilho: Trapped inside my head

Really, the question posed by the nature of the work Trapped inside my head by Mara Castilho, showing at 111 gallery, does not differ from that of the purpose of the sacrifice – an offering to death. Being trapped inside oneself it is an unpleasant situation it is hard to escape, while in the act of becoming trapped, one gives up something valued for the sake of something else regarded as more worthy, in order to persuade someone to do something that they would not otherwise want to do, by means of deception.

The first thing we notice is a video installation, Untitled (2008), which projects a human figure on to the floor. Tranquillity lends strength and a sense of peacefulness surround a prostate, nude woman with anxious breathing, suggesting nature’s fertility. However, this projected body lying on a green carpet of turf traces back to fields where thousands of death bodies lie, testimonies from the Balkans war.

However, on the other side of the exhibition space, the video projection Sarajevo: Walking Through Rubble (2008), show us a half-naked body on a transparent morphogenesis surface. This work makes reference to the thousand of bodies thrown in to Sarajevo river, while streaming images of decay and destruction pass in slow motion.
But in the work that entitle the exhibition Trapped inside my head (2008) – two plasma screens – the sacrifice remains open to the representation of what repels us.

The exhibition is accompanied by two more works, however the whole assemblage – the object, the subject and the observer – does not differ substantially from what the Aztecs had came to see at the base of a pyramid, where the victim’s heart was to be torn out. It is the testimony that we follow a lineage of sacrifices, sacred murders made by the thousands. Art may have finally liberated itself from the service of political dictates but it maintains it servitude with regard to horror. Castilho’s art puts us on the path of complete destruction and suspends us in time – it offers pure pleasure without real death.

Published at Lapiz, Revista Internacional de Arte. Año XXVIII, Núm. 250_1 (184), Febrero_Marzo 2009 España © Mara Castilho (left): "Waiting I", 2008, impresion en caja de luz, 44x70cm; (right) "Untitled", 2008, impresión sobre tela, 80,5x119,5cm.

Tuesday, 10 February 2009

O intenção do sacrifício

A questão colocada pela natureza da exposição Trapped inside my head, de Mara Castilho, na galeria 111 (Lisboa), não difere muito da do propósito do sacrifício – uma oferta à morte.

A vídeo instalação Untitled (2008) projecta no chão da galeria uma figura humana. As forças da tranquilidade e a sensação de serenidade acompanham o corpo despido de uma mulher deitada, com respiração ansiosa, enquanto sugere a fertilidade na natureza. No entanto, este corpo envolto por um tapete de relva encaminha-nos para os milhares de corpos mortos, testemunhos da guerra dos Balcãs.

A exposição é, ainda, acompanhada por plasmas, impressão em caixa de luz e uma impressão digital sobre tela (€2.000, cada), mas a exposição no seu todo – os objectos, os sujeitos e os observadores – remete para o que os astecas iam ver na base das pirâmides, para onde os corações das vitimas eram atirados.

O trabalho de Mara Castilho é um testemunho de que estamos na linhagem dos sacrifícios, assassínios sagrados aos milhares.

Published at NS'161/IN#057, Mercado da Arte (78), (Diário de Notícias e Jornal de Notícias), 7 de Fevereiro de 2009 Portugal © Mara Castilho, Waiting I (Caixa de Luz, 44x70cm, edição de 3), 2008 Courtesy: Galeria 111