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Tuesday, 25 May 2010

Uma porta entre o Oriente e o Ocidente

A ART HK é considerada a mais importante feira de arte moderna e contemporânea da China, este ano com a participação de mais de 150 galerias originárias de 29 países diferentes. Com obras avaliadas entre os mil euros e os dez milhões de euros, a ART HK tem conseguido atrair uma interessante mescla de coleccionadores internacionais, curadores e directores de museus. A ART HK 10 decorre entre 27 e 30 de Maio, em Hong Kong.

Presentemente, a ex-colónia britânica é um dos maiores centros financeiros mundiais e é o terceiro maior mercado em volume de vendas em leilões, depois de Nova Iorque e de Londres. A sua localização geográfica, de entreposto comercial (goza de um estatuto económico especial que serve de incentivo a galerias ocidentais por estas não estarem sujeitas aos direitos de importação ou exportação, nem a qualquer taxa sobre obras vendidas na feira), permite atrair grande número de investidores provenientes das maiores economias europeias e norte-americana, além dos grandes mercados do sudoeste asiático (Japão, Coreia do Sul e China).

Esta terceira edição abre com 61 novas presenças. Galerias como a Hauser & Wirth (Zurique, Londres e Nova Iorque), Emmanuel Perrotin (Paris e Miami), Lehmann Maupin Gallery (Nova Iorque), vêm juntar-se a um forte conjunto de galerias, como a White Cube e Lisson (ambas de Londres) e a Gagosian Gallery (com espaços em várias cidades norte-americanas e da Europa), que já tinham participado nas edições anteriores.

A ART HK atraiu nas duas primeiras edições aproximadamente cinquenta mil visitantes.

Published at NS'228/IN#124, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51544 e Jornal de Notícias N.º 355/122), 22 de Maio de 2010, Portugal. Ryan Gander, I don’t blame you, or, When we made love you used to cry and I love you like the stars above and I’ll love you ‘til die, 2008. Photography: Louise Hayward. Courtesy: Lisson Gallery.

Monday, 24 May 2010

Recordes em tempos de recessão

As oportunidades surgem quando os mercados se encontram mais voláteis.

Apesar de parecer contra intuitivo este é o momento ideal para se encontrar as verdadeiras obras de arte à venda. Uma das razões para esta tendência natural do mercado está no facto de que os mais ricos continuam a prosperar – é ver, por exemplo os lucros obtidos e os prémios que continuam a ser atribuídos aos gestores das grandes empresas, quer a nível nacional quer internacional – enquanto a classe média começa a sofrer com a diminuição da actividade financeira e a incerteza económica. Mas também significa que o mercado não está entupido com produtos de qualidade duvidosa e valores extrapolados por instigadores financeiros à procura do bónus fácil.

Grande parte das vendas de referência que ficaram para a história, durante o século XX, foram em períodos económicos maus: Adoração dos Magos (1481-82), de Botticelli, durante a Grande Depressão, na década de vinte do século passado; Juan de Pareja (1650), de Diego Velázquez, durante a crise do petróleo dos anos setenta; Juliet and Her Nurse (1836), de J. M. W. Turner, na crise do consumo em 1980; ou o Retrato de Dr. Gachet (1890), de Vincent van Gogh, na crise bancária e monetária, em 1990, são alguns exemplos.

Recentemente, em Abril, o leilão especial organizado pelo Palácio do Correio Velho, em Lisboa, resultou em mais de um milhão de euros, um serviço de jantar em porcelana chinesa foi arrematado por 115 mil euros.

Um outro exemplo, com a moral inflacionada pelos recentes recordes, quer no segmento dos grandes mestres (Head of a Muse, de Rafael), em Dezembro de 2009, quer no segmento da arte moderna (L’Homme Qui Marche I, de Alberto Giacometti, e Nude, Green Leaves and Bust de Picasso), em Fevereiro e Maio deste ano, respectivamente, as casas leiloeiras antecipam um incremento dos preços da arte contemporânea para valores equivalentes aos praticados antes do colapso dos mercados financeiros. Ou seja, em seis meses, o recorde para uma obra em leilão foi superado mais vezes do que durante todo o período de euforia especulativa, entre 2005 e 2008. Traduzido, actualmente a expectativa está em mais de metade dos lotes oferecidos no leilão de arte do Pós-Guerra e Contemporânea na Christie’s, de Nova York, ultrapassar a linha do um milhão de euros para o valor mínimo estimado.

O ruído especulativo desapareceu e quem compra está concentrado no objecto de arte. As oportunidades surgem quando os mercados se encontram mais voláteis e os segmentos de topo do mercado da arte são, neste contexto de crise, os mais apetecíveis e procurados.

Published at NS'228/IN#124, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51544 e Jornal de Notícias N.º 355/122), 22 de Maio de 2010, Portugal. Diego Velazquez, Juan de Pareja (óleo sobre tela, 81,3x69,9cm), 1650. Courtesy: The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.

Tuesday, 11 May 2010

Arte na experiência consumista

A multinacional sueca IKEA, conhecida por aliar bom design e funcionalidade a um preço baixo, tem planeada uma encomenda no valor de milhares de euros a importantes artistas contemporâneos para conceberem e introduzirem obras de arte na loja da marca em Moscovo.

Previsto para abrir em 2012, este novo espaço – com 260 mil metros quadrados de lojas, restaurantes e uma pista de gelo, a par da conhecida loja de venda de mobiliário e decoração para casa – vem juntar-se a outras áreas entretanto criadas, como o Garage Centre for Contemporary Culture, de Dasha Zhukova, inaugurado em 2008, o Art4ru, do multimilionário Igor Marking, inaugurado em 2002, dedicadas à promoção e difusão da cultural e da arte contemporânea.

A inclusão de obras de artistas como Piotr Uklanski, Jeppe Hein e Jim Lambie na futura megaloja faz parte do plano da empresa para criar uma experiência diferente no comércio de retalho: aliar a experiência comercial à cultura e ao lazer no mesmo espaço. Dados económicos do grupo IKEA referentes a 2009 mostram um aumento de 1,4 por cento no volume de vendas, para um total de 21,5 mil milhões de euros.

Reflexos do poder
O trabalho de Isabelle Faria (n. 1973) presente na Galeria 111 desenvolve-se na linha da reflexão política e é uma chamada de atenção sobre um conjunto de princípios apresentados como verdade incontornável. Os grupos de desenhos (lápis de aguarela sobre papel, com valores entre os dois mil e os 6,5 mil euros) apresentam-se como referências históricas com uma capacidade representativa análoga à capacidade de o poder manter a sua estrutura através da constante alimentação das forças libertadas pela desintegração do núcleo de uma aparente individualidade. Os desenhos são reflexos individuais de expressões morfológicas de elementos sociais transportadas para um contexto natural – gorilas, chimpanzés, orangotangos ou bonobos e mais um conjunto de animais, como cães geneticamente transformados ou mochos, águias e abrutes.

Published at NS'226/IN#122, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51530 e Jornal de Notícias N.º 341/122), 8 de Maio de 2010, Portugal. Piotr Uklanski, Untitled (Pentecost), 2008. Courtesy Gagosian Gallery; Isabelle Faria, The World, 2009. Courtesy Galeria 111

Monday, 10 May 2010

Feira de fotografia em Madrid

A Madridfoto é um evento exclusivamente dedicado à promoção e venda de fotografia contemporânea e vintage internacional.

Durante os próximos dias, de 12 a 16 de Maio, realiza-se em Madrid a única feira ibérica dirigida ao coleccionismo de fotografia. Cerca de setenta expositores vão estar presentes na Madridfoto, dos quais 58 são galeria originárias de 12 países (Espanha, Portugal, Itália, França, Luxemburgo, Reino Unido, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Canada, México e EUA).

Se na primeira edição, no ano passado, era possível encontrar algumas da mais importantes galerias espanholas, como Helga de Alvear, Juana de Aizpuru ou Oliva Arauna, em contrapartida este ano a feira conta com três novas participações portuguesas. Filomena Soares, Módulo – Centro Difusor de Arte e Pedro Cera, todas de Lisboa, juntam-se à galeria Carlos Carvalho Arte Contemporânea, também da capital, que já tinha participado em 2009.

O mais importante encontro mundial dedicado à fotografia realiza-se anualmente em Paris, durante o mês de Novembro. A Paris Photo, na sua última edição, registou um recorde de afluência, ao superar os quarenta mil visitantes. A feira de Paris serviu de tónica num período durante o qual acompanhámos o desmoronar do sistema financeiro, quando ainda persistiam incertezas sobre a capacidade do mercado da arte em superar as adversidade económicas resultantes das fraudes do sector imobiliário.

No acelerado e mediato mundo do século XXI, a fotografia contemporânea é, desde 1998, um segmento de mercado em constante crescimento. Em dez anos, o retorno total do leilões de fotografia contemporânea no mercado da arte cresceu mais de mil por cento.

E, neste contexto, o segmento de mercado relativo à fotografia contemporânea teve um crescimento ao nível da quota do mercado em leilões dedicados à fotografia de 21 por cento, em 2008, para 33 por cento, em 2009. O leilão de fotografia da Phillips de Pury, em Londres, em Outubro de 2009, apresentou um aumento na média do preço em leilão de 18 por cento relativamente a Maio do mesmo ano.

Actualmente, o mercado da fotografia contemporânea é muito mais apetecível do que o segmento de mercado dedicado a fotografias antigas ou vintage. Em 2008, o volume de negócios no segmento contemporâneo era 15 vezes superior ao segmento de fotografias antigas ou vintage.

A Madridfoto é um evento exclusivamente dedicado à promoção e venda da fotografia contemporânea e vintage internacional. No ano passado recebeu mais de 12 500 visitantes.

Published at NS'226/IN#122, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51530 e Jornal de Notícias N.º 341/122), 8 de Maio de 2010, Portugal. Adriana Duque, Emília (serie Baroque Children), 2009. Courtesy Horrach Moya e MadridFoto

Monday, 3 May 2010

Media Art, matérias concebidas no tempo

Entrevista com a coleccionadora norte-americana Pamela Kramlich sobre obras artísticas que têm como suporte vídeos, filmes, gravações áudio e instalações apresentadas em computadores.

Em 1987, os coleccionadores norte americanos Pamela e Richard Kramlich criaram o New Art Trust, uma fundação sem fins lucrativos criada para promover a colecção, a salvaguarda e a exposição de media art. No início do milénio, os coleccionadores, em conjunto com Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA), EUA, associaram-se ao Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova Iorque, e à Tate Gallery, de Inglaterra, e criaram o programa de pesquisa Matters in Media Art. Para Pamela Kramlich, este é «um projecto multi-faseado desenhado para providenciar as linhas orientadoras para o zelar de obras de arte concebidas num suporte com base no tempo».

Time-based media works of art são obras concebidas por ferramentas usadas normalmente no armazenamento e distribuição de informação ou dados – vídeos, filmes, áudio e computadores, por exemplo. Como diz a coleccionadora, este género de obras de arte exige uma abordagem pró-activa na sua preservação e gestão, mas também levanta questões sobre a propriedade da obra devido à sua capacidade de ser reproduzida, atributo bastante distinto do das pinturas ou das esculturas. A Matters in Media Art reúne obras de Bill Viola, Bruce Nauman, Doug Aitken, Eija-Liisa Ahtila, Matthew Barney, Nam June Paik, Pipilotti Rist ou Stan Douglas, entre outros.

Pode dar uma breve descrição da sua colecção de media, em especial onde reside o valor na media arte?
Nós começamos a construir a nossa colecção em 1987, depois de visitarmos a Documenta VIII [realizada de cinco em cinco anos em Kassel, na Alemanha, a Documenta é uma das mais importantes exposições de arte moderna e contemporânea; a próxima está prevista para o Verão de 2012], num período em que a colecção de obras concebidas em suportes com base no tempo era inédito. Deste então expandimos a colecção. Actualmente inclui mais de trezentas obras de mais de sessenta artistas internacionais. Esta é uma colecção de índole histórica que irá beneficiar as gerações futuras.

Como é lidar com a preservação e apresentação de obras «concebidas num suporte com base no tempo»?
Em 1997, criamos o New Art Trust com o objectivo de promover media art, fosse através do apoio à pesquisa ou na concessão de bolsas de estudo para este campo em particular. Na Primavera de 2005, os membros da Trust – MoMA, SFOMA e Tate – associaram-se para lançar em conjunto o Matters in Media Art, um projecto multifaseado desenhado para providenciar as linhas orientadoras para cuidar de obras de arte concebidas com um suporte temporal. Por exemplo, vídeo, filmes, áudio e instalações apresentadas em computadores.

Quais são os grandes desafios da media art e dos artistas contemporâneos que utilizam este meio como forma de expressão?
O maior desafio dos artistas de obras baseadas no tempo é a preservação do seu trabalho a longo prazo. Este continua a ser um território relativamente novo e ainda inexplorado.

Qual é o papel que a media art pode desempenhar na sociedade contemporânea?
Um dos nossos interesses na arte electrónica resulta do compromisso de apoiar a prática artística e a crença no potencial das novas tecnologias – filmes, vídeo, imagem digital, e software de edição/composição – como uma ferramenta de expressão.

Existem ligações entre arte e gastronomia?
Ambas são artes baseadas em sensações: ver, ouvir e tocar.

Qual o vinho que lhe trouxe as memórias mais interessantes?
Madeira, de 1890, devido à sua história, à complexidade nos níveis de sabores, um nariz belo e exótico.

E qual a peça de arte que lhe provocou o mesmo efeito?
I N I T I A L S (1993-94), de James Coleman, pelo seu poder de provocar a imaginação de cada pessoa individualmente.

Published at NS'225/IN#121, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51523 e Jornal de Notícias N.º 334/122), 1 de Maio de 2010, Portugal. Bill Viola, The Greeting, 1995. Video/sound installation (430 x 660 x 780cm), Color video projection on large vertical screen mounted on wall in darkened space, amplified stereo sound. Performers: Angela Black, Suzanne Peters, Bonnie Snyder. Photo: Kira Perov. Courtesy: Bill Viola Studio LLC

Tuesday, 27 April 2010

Imagens de espaços originais

Em vez de registar o representado no domínio público, Manuela Marques desviou o seu olhar para os domínios privados e apresenta um conjunto de fotografias – com valores entre 4250 e cinco mil euros – sobre a localidade portuária Le Havre, situada no estuário do rio Sena, em França. A cidade foi inscrita como património da UNESCO em 2005. As imagens apresentam tempos interpretativos da reconstrução arquitectónica de um espaço destruído durante a Segunda Grande Guerra e a urbanização característica do pós-guerra. Em oposição às imagens ruidosas das fachadas de edifícios, das praças ou dos monumentos, as fotografias captadas por Manuela Marques são registos onde o silêncio predomina.

O terceiro mercado mais importante na América Latina
A feira de arte de São Paulo, SP-Arte, é considerada actualmente a terceira mais importantes feira de arte da América Latina. A Zona Maço (Cidade do México, México) e a ArteBA (Buenos Aires, Argentina) são as outras duas feiras. A SP-Arte apresenta este ano um conjunto de oitenta galerias de arte moderna e contemporânea oriundas da Argentina, Uruguai, México, Espanha, Franca, Reino Unido e do Brasil, galerias como Fernando Padrilha e Horrach Moya, de Espanha, ou Stephen Friedman Gallery, dos EUA. Apesar do elevado valor alfandegário pago para importar obras de arte para o Brasil, este país apresenta algumas das mais interessantes colecções privadas de arte, como Gilberto Chateaubriand ou Bernardo Paz, ou coleccionadores institucionais como o Banco Espírito Santo, de Portugal. São esperados cerca de 15 mil visitantes na sexta edição da SP-Arte.

Published at NS'224/IN#120, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51516 e Jornal de Notícias N.º 327/122), 25 de Abril de 2010, Portugal. Manuela Marques, Untitled 10, 2009. Courtesy Caroline Pagès Gallery, Lisboa; Jarbas Lopes, Courtesy A Gentil Carioca, Rio De Janeiro

Monday, 26 April 2010

O piquenique de Múrcia

Cristina Lucas transformou uma refeição num diálogo sobre a arte e a sociedade.

Inscrita no projecto Dominó Canibal [NS’ 222], a artista Cristina Lucas estruturou e criou um diálogo entre os vários intervenientes, com a forma de um piquenique, no Jardim del Malecón, no centro da cidade de Múrcia (Espanha). A intervenção da artista trouxe para o mesmo espaço o discurso técnico dos artistas participantes, do curador e de quem organiza, dos críticos e dos jornalistas, do público especializado e do público em geral. Mas o mais importante é a aproximação entre as diferentes áreas sociais, onde os vários intervenientes tomam parte de uma conversa de forma a explorar um determinado assunto, com o respeito devido entre cada uma das partes.

Num banquete existe um diálogo entre os vários intervenientes num qualquer espaço delimitado por fronteiras imaginárias – seja no saborear da comida confeccionada, no apreciar do vinho ou entre as pessoas sentadas à mesa. Uma refeição não é um monólogo; a refeição serviu para a artista questionar directamente os jornalistas e críticos presentes sobre «o que fazem quando não percebem uma obra de arte». Conforme expressa Cristina Lucas, «se um jornalista tem o direito de me questionar sobre a minha obra, sobre o que faço, isso dá-me o direito de também lhe fazer uma questão, sobre a sua profissão de jornalistas ou crítico de arte».

O segundo aspecto na intervenção de Cristina Lucas debruça-se sobre o espaço de exposição – a Sala Verónicas é uma igreja conventual de estilo barroco do século XVIII, nomeadamente sobre os conceitos católicos aplicados à arte conceptual. Sobre a bienal o curador referiu que este evento «traz para dentro dos limites institucionalizados por assuntos simbólicos e de disciplina, tudo o que deve de ficar de fora, tudo o que está nos domínios do inútil e não deve de ser incluído».

Uma outra leitura na intervenção de Lucas no evento Dominó Canibal está relacionada com um dos princípios do próprio projecto. Por ser uma plataforma para sobreposições e descontinuidades «com algumas complexidades, pois dadas as circunstâncias tinha de “comer” Jimmie Durham, a intervenção foi um extenso processo onde tudo foi transformado e reutilizado», esclarece a artista.

No decorrer de todo o processo de «canibalização» a sua intervenção da artista foi gravada. Neste acto de registo documental da acção, «a obra passa de objecto registado para o registo da concepção do objecto. Os vídeos transpõem os limites físicos ditados pelos objectos em si. Mas também estão disponíveis para ser transformados». Assim, «seja qual for o esquema apresentado e sejam quais forem as questões de direito de autor ou de propriedade intelectual, as obras de arte ficam ao serviço dos que vêm a seguir».

Por outras palavras, «os restos dos objectos são utilizados – a economia do inútil – pelos artistas para fazer readymade, como são também utilizados pelas pessoas no seu quotidiano para satisfazer necessidades básicas». Por exemplo, os bidões transformados em grelhadores, os pneus em baloiços, ou os cartazes em legendas informativas.

No final de qualquer banquete, o que fica são os restos, os excedentes reutilizados de uma actividade, e «ao dar-lhe um sentido, o ter que os usar – por isso o barbecue realizado no parque público no cento da cidade durante a apresentação do projecto –, está-se a fazer útil a obra de arte, ou seja, está-se a dessacralizar a obra de Jimmie Durham. O retorno ao espaço de exposição, a Via Sacra para a Sala Verónicas, transforma as peças em obras de arte, e aqui entramos no processo de sacralização», clarifica a artista.

Published at NS'224/IN#120, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51516 e Jornal de Notícias N.º 327/122), 25 de Abril de 2010, Portugal. Cristina Lucas, Dominó Canibal (VI. Sacrificar / To Sacrifice: happening of press-conference lunch, using the grills and chairs with journalist and critics, and artist and curator answering questions on the condition of making questions in turn), 2010. Courtesy PAC – Proyecto de Arte Contemporánea

Tuesday, 20 April 2010

México contemporâneo

Mais de nove dezenas de galerias estão reunidas na cidade do México para a sétima edição da ZonaMaco México Arte Contemporâneo. A Graça Brandão (Lisboa e Porto), inserida no programa principal da feira, e Cristina Guerra (Lisboa), em representação do artista angolano Yonamine – convidado pelo curador brasileiro Adriano Pedrosa para integrara a proposta ZonaMaco SUR (composta pela apresentação de artistas do hemisfério sul) –, são as duas galerias de arte nacionais presentes nesta reunião do mundo da arte. Alem destas e das representantes locais, como a Kurimanzutto, OMR ou Proyectos Monclova, estão também presentes galerias oriundas dos grandes centros mundiais, como a Alexander and Bonin (Nova Iorque, EUA), Barbara Thumm (Berlim, Alemanha), Sadie Coles (Londres, UK), ou dos mercados emergentes, como as galerias Nara Roesler e a Vermelho (São Paulo, Brasil), A Gentil Carioca (Rio de Janeiro, Brasil), ou o espaço Revolver (Peru).

A ZONAMACO é considerada uma das mais importantes feiras de arte da América Latina. Com um programa apresentado em conjunto com várias instituições locais, o Museu de Arte Moderna e a Fundación/Colección Jumex, a ZonaMaco espera receber mais de 25 mil visitantes durante estes quatro dias.

Colónia e Bruxelas
Durante os próximos dias realizam-se as feiras de arte contemporânea de Colónia (21 a 25 de Abril) e Bruxelas (23 a 26 de Abril), na Alemanha e na Bélgica, respectivamente.
A terceira edição da feira de Colónia, organizada pelo antigo galerista de Los Angeles (EUA) Daniel Hug, apresenta 222 expositores, dos quais 180 são galerias de arte moderna, do pós-guerra e contemporânea, originárias de 22 países. Dados referentes a 2009 registam 56 500 visitantes. A feira de Bruxelas, com 174 stands originários de 24 países, está incluída a galeria Filomena Soares, de Lisboa, espera a visita de mais de trinta mil coleccionadores, críticos, jornalistas e entusiastas da arte de várias partes do mundo.

Published at NS'223/IN#119, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51509 e Jornal de Notícias N.º 320/122), 17 de Abril de 2010, Portugal. Vista da Zona Maco 2009 Courtesy Zona Maco; Vasco Araújo, All that Falls, 2009 Courtesy Galeria Filomena Soares

Monday, 19 April 2010

Artes e desenvolvimento económico

As autarquias têm apostado no desenvolvimento de actividades artísticas, de forma a criar um produto turístico cultural diferenciado.

Portugal sofre de um problema de dívida tanto pública como do sector privado. Uma forma encontrada para solucionar esta situação tem sido a aposta no desenvolvimento e na implementação de actividades e acções de índole cultural e artística, de forma a criar um produto turístico cultural diferenciado, de cariz singular. A concepção de manifestações culturais diversificadas que atraem as massas é uma das ferramentas utilizadas pelo sector público, sejam esses eventos de projecção internacional, como a Capital Europeia da Cultura, ou nacionais, como os festivais organizados pelas autarquias.

Neste contexto, Óbidos «escolheu a criatividade como motor da sua estratégia de desenvolvimento», segundo a coordenadora das galerias do concelho, Ana Calçada. «O município tem investido de forma significativa na sua estratégia, com medidas e acções concretas», ao envolver «o melhor do capital humano e intelectual, criando programas que se prolongam no futuro. Há um esforço de competitividade territorial que ultrapassa em muito o investimento nacional no concelho», acrescenta.

Aquela responsável diz que «Óbidos decidiu integrar as artes com o seu espaço construído ao apostar na inovação, numa fusão em que a história e a produção criativa estão em estreita relação com múltiplas competências». Só em 2009, os «visitantes controlados apenas nos espaços fechado, foram 19 mil». Não estão incluídos os visitantes de eventos organizados pela autarquia, como o festival Junho das Arte ou o Festival Internacional de Chocolate, por exemplo, que ocupa a totalidade da localidade e atraiu este ano cerca de duzentos mil visitantes. A Câmara de Óbidos tem atribuído à cultural 14 por cento do orçamento global anual (cerca de quarenta milhões de euros).

A terceira edição do Junho das Arte, sob o tema «Arte Pública – Arte entre Muralhas», procura continuar a integração das artes num espaço histórico – as candidaturas para os Project Rooms estão abertas até dia 30 deste mês. O evento realiza-se entre 5 e 27 de Junho próximo. A comissão de selecção é constituída por Filipa Oliveira (comissária convidada), Ana Calçada e Miguel Silvestre (em representação do autarquia). Nas edições anteriores os comissários convidados foram Paulo Reis, em 2008, e Luís Serpa, em 2009.

Published at NS'223/IN#119, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51509 e Jornal de Notícias N.º 320/122), 17 de Abril de 2010, Portugal. Vista da exposição Theatron de Pedro Valdez Cardoso, na galeria Nova Ógiva. Courtesy Câmara Municipal de Óbidos

Tuesday, 13 April 2010

Canibalismo cultural de Cristina Lucas

Dominó Canibal é o título atribuído pelo curador mexicano Cuauhtémoc Medina ao projecto de arte contemporânea, em Múrcia (Espanha), no qual a distribuição dos artistas ao longo do ano pretende criar momentos de canibalização estética. Assim, o segundo artista a participar na bienal Proyecto de Arte Contemporánea, Cristina Lucas – depois de Jimmie Durham e antes de Bruce High Quality Foundation –, realizou no passado dia 23 de Março um happening, em que a artista utilizou os elementos recolhidos por Durham para conceber um churrasco. No seu corpo de trabalho, principalmente em vídeo e fotografia, Cristina Lucas (n. 1973) apresenta continuamente uma intervenção estética exercida na apropriação sarcástica de «imagens» de uma variedade de ídolos e estereótipos intelectuais, institucionais e iconográficos, como, por exemplo, as desigualdades sociais em Tú También Puedes Caminar (2006). A transgressão neste novo momento acontece com a passagem de uma suposta disposição exposicional de readymade, concebida anteriormente por Durham, num espaço institucionalizado de poder, para a criação de um evento “relacional” (no seguimento do que é defendido pelo crítico e curador francês Nicolas Bourriaud no livro «Estética Relacional») num espaço externo, nos públicos Jardines del Malecón. O resultado deste «canibalismo cultural» foi gravado e integra a peça de Lucas actualmente em exposição na Sala da Igreja de Verónicas.

Uma pesquisa sobre a memória do espaço
O quarto programa de exposição do espaço Carpe Diem Arte e Pesquisa apresenta os trabalhos Double Lecture de Ângela Ferreira (n. 1958), Abro a Janela e Respiro o Ar Fresco do Fim do Mundo de Álvaro Negro (n. 1973, Espanha), a instalação Invasive Species de Catarina Leitão (n. 1970), o filme e as fotografias A Memória da Memória, de Daniel Blaufuks (n. 1963), e Monólogo Jardim, Palácio Polifonia, um conjunto de trabalhos de Javier Peñafiel (n. 1964, Espanha). A exposição inaugurou no dia 26 de Março, e está patente até ao dia 29 de Maio no antigo Palácio do Marquês de Pombal, em Lisboa.

Published at NS'222/IN#118, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51502 e Jornal de Notícias N.º 313/122), 10 de Abril de 2010, Portugal. Cristina Lucas, Tú También Puedes Caminar, 2006 Courtesy Fundación NMAC Foto: C.L.; Daniel Blaufuks, A Memória da Memória, 2010 Courtesy the artist

Monday, 12 April 2010

A conservação do discurso oficial

Seja o Sudário de Turim uma peça com mais de dois mil anos ou uma falsificação da Idade Média, para milhões de pessoas esta é oficialmente considerada a mortalha fúnebre de Cristo.

Em 2002, o Sudário de Turim foi submetido a uma intervenção radical destinada a garantir a conservação da relíquia. No entanto, e por oposição às actuais percepções de conservação e aos modelos condutores das práticas de restauro defendidos pelos principais organismos internacionais de conservação e restauro, receia-se que o impacto negativo da intervenção seja muito mais substancial do que o da premissa que levou àquele diagnóstico.

Esta intervenção consistiu essencialmente na remoção de pequenos pedaços de material orgânico, aplicados em 1534, para emendar zonas danificadas por um incêndio. Foram aspiradas grandes porções de áreas do sudário para retirar poeiras e outros resíduos. Realizaram-se ainda outras medidas correctivas necessárias para melhorar a aparência visual da relíquia.

Seja o sudário uma peça com mais de dois mil anos ou uma falsificação da Idade Média (séculos XII-XIII) com menos de mil, para milhões de pessoas – também em Portugal – esta é oficialmente considerada a mortalha fúnebre de Cristo. Mas o certo é que o objecto é uma evidência histórica, um artefacto arqueológico de interesse científico devido à origem, ainda por explicar, da impressão de uma imagem – os vestígios de um homem – que tanto é tridimensional como um negativo fotográfico, numa matéria orgânica.

A antítese da função de produção em massa sobre a sua autenticidade – neste caso do Sudário de Turim – consiste no isolamento de um objecto e na sua posterior colocação fora dos limites aceitáveis institucionalmente, por quem tem autoridade para definir esses limites numa comunidade global, enquanto apresenta uma impressão de solidez (actualmente visual) no discurso oficial da edificação e aceitação dos novos limites como já existentes.

O estratagema de um bom plano de marketing, principalmente numa sociedade construída sob uma premissa católica, consiste em criar a ilusão de escassez, ao jogar com a obscura nostalgia de privação, enquanto nega a existência de quantidade. Esta função parece justificar a precariedade que afecta toda a paisagem cultural contemporânea, ou seja, no processo de desordenação que distingue a nossa época.

Published at NS'222/IN#118, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51502 e Jornal de Notícias N.º 313/122), 10 de Abril de 2010, Portugal. Imagem frontal do Sudário de Turim como foi fotografado em 1898 Courtesy : Aldo Guerreshic (todos os direitos reservados

Tuesday, 6 April 2010

Vendas sólidas em Maastricht

A feira de arte TEFAF Maastricht é frequentemente descrita como «um museu onde tudo está à venda e onde os comerciantes, em exposição, apreciam o facto de a feira ser levada a sério pelos museus de todo o mundo».

Além dos 171 aviões privados que aterraram no aeroporto de Maastricht/Aachen (82 jactos privados só no primeiro dia) durante o decorrer da feira, mais de 150 representantes de museus de 17 países, como foi o caso do National Gallery of Art de Washington DC (EUA), a visitar a feira.

Na secção de arte moderna e contemporânea a galeria Hauser & Wirth (com espaços em Zurique, Londres e Nova Iorque) vendeu uma pintura (Sem Título, 1960), de Eva Hesse, por €550 mil, enquanto a Gallery Thomas (Munique), vendeu um guache (Walking Couple, 1916) de Wassily Kandinsky (1866-1944), avaliado em cerca de €400 mil.

A nível das antiguidades, o comerciante Rupert Wave (Londres), vendeu uma máscara em madeira de uma múmia egípcia (1069-715 a.C.), com o preço de €150 mil, a um coleccionador privado.

De acordo com informações facilitadas pela organização da feira, «as vendas foram fortes, em particular as obras novas no mercado.»

Os diferentes espaços Schengen
A globalização gerou uma cultural acessível a todos. Na Europa, o espaço Schengen representa um território no qual a livre circulação das pessoas garante o acesso a esse sonho modernista de uma humanidade única. Mas, afinal, porque é que a diversidade cultural deve ser preferível à partilha de uma única cultura, comum a todas as pessoas? As imagens fotográficas de Délio Jasse (com preços aproximadamente de mil euros, por cada peça) reflectem as raízes do passado colonial português e as delimitação das exclusões internas e das inclusões externas que estão reflectidas. Questionam a autoridade policial e judicial que garante a segurança no espaço Schengen, mas também a diversidade cultural nacional.

Published at NS'221/IN#117, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51495 e Jornal de Notícias N.º 306/122), 3 de Abril de 2010, Portugal. TEFAF Maastricht 2010, Foto: Bastiaan van Musscher; Délio Jasse, Voo Luanda-Lisboa (emulsão fotográfica sobre papel fabiano, 200x140cm), 2010. Courtesy Galeria Baginski

Monday, 5 April 2010

A contínua reformulação do mercado

O último relatório apresentado pela agência de informação francesa Artprice veio provar que o mercado teve uma maior capacidade de adaptação e recuperação agora do que durante a crise de 1991.

Os dados referentes ao primeiro semestre de 2010 e ao ano de 2009 vêm confirmar que este é ainda um tempo de contínua reformulação para o mercado da arte. Os leilões vão continuar a apresentar menos lotes quando comparados com o período anterior a Setembro de 2008, e muitas vendas vão realizar-se a nível privado.

Como é expresso por alguns coleccionadores privados, hoje os leilões são os lugares privilegiados para adquirir obras de arte contemporânea, pois muitos valores apresentados em leilão são menores do que os praticados ainda por algumas galerias nacionais que, por razões de posicionamento no mercado, dificilmente podem alterar os valores anteriormente praticados.

Por exemplo, se entre 2002 e 2008 o maior volume de vendas em leilões era obtido por artistas contemporâneos, como Andy Warhol, Gerhard Richter, Jean-Michel Basquiat ou Damien Hist, em 2009 estes foram substituídos por Pablo Picasso (1881-1973), Qi Baishi (1864-1957) ou Raphael (1483-1520) como os artistas com maior procura.

Ao longo de 2009, pelo menos 50% de todas as vendas realizadas no mercado da arte global efectuaram-se na Europa, enquanto 55% de todas as vendas globais foram geradas por comerciantes, como galeristas ou leiloeiras.

O último relatório apresentado pela agência de informação francesa Artprice sobre as tendências do mercado artístico durante 2009 veio provar que o mercado teve maior capacidade de adaptação e recuperação agora do que durante a crise de 1991. Enquanto o relatório apresentado pela feira TEFAF Maastricht sobre o mercado da arte, em 2009, estima uma circulação de capitais na ordem dos 31,3 mil milhões de euros, quando, em 2007, foi estimado em cerca de 48,1 mil milhões de euros.

Depois dos anos de euforia e de preços inflacionados para além do razoável, as principais casas leiloeiras fizeram concessões consideráveis para evitar o congelamento completo do mercado: redução de pessoal; das reestruturações internas e confluência de alguns departamentos; vendas temáticas; a redução do preço de reserva e a garantia de preço (preço combinado entre a leiloeira e o vendedor antes do leilão); revisão das estimativas; redução do número de catálogos e de densidade (menos lotes oferecidos), etc.

Quanto ao mercado das feiras, assistiu-se simultaneamente a uma fragmentação local e especialização das ofertas, como foi o caso das recentes feiras paralelas em Nova Iorque, durante a Armory Show, ou em Madrid, durante a ARCOmadrid, ou ainda a criação de novas áreas expositivas na feira TEFAF, de Maastricht.

Published at NS'221/IN#117, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51495 e Jornal de Notícias N.º 306/122), 3 de Abril de 2010, Portugal. Pablo Picasso, Mousquetaire à la Pipe (óleo sobre tela), 1968. Courtesy Christie’s 2010

Tuesday, 30 March 2010

Performances acima do esperado

Quantificar o mercado da arte é extremamente complicado, pois mais de metade das transacções ocorrem ao nível das galerias e estes valores são sempre difíceis de verificar (um relatório sobre o mercado internacional da arte entre 2007 e 2009 estimava para valores na ordem dos 31,3 mil milhões de euros para 2009, quando em 2007 foram de 48,1 mil milhões de euros).

Recentemente, a leiloeira Sotehby’s apresentou resultados relativos ao ano de 2009. Estes vêm demonstrar a quebra de vendas quando comparados relativamente a 2008. E vem demonstrar igualmente que quando existem obras de qualidade no mercado existem compradores. A leiloeira anunciou vendas no valor de dois mil milhões de euros para 2009, uma quebra de cerca de cinquenta por cento, quando comparado com o resultado total de 2008, aproximadamente 3,9 mil milhões de euros. Entretanto, durante o último trimestre de 2009, a casa leiloeira teve um lucro líquido de 54 milhões de euros, o segundo maior na história da companhia.

No entanto, e apesar da desaceleração económica, acentuada durante primeiro trimestre de 2009, o mercado da arte em geral teve uma performance muito melhor do que o esperado. Muitos dos compradores mundiais viram no mercado artístico um valor tangível a longo prazo mais fiável para investirem do que em carros, iates ou jactos privados.

Published at NS'220/IN#116, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51488 e Jornal de Notícias N.º 299/122), 27 de Março de 2010, Portugal.

Monday, 29 March 2010

Uma questão de gosto

É possível designar categoricamente qual a melhor entre uma pintura de Júlio Pomar e uma escultura de Joana Vasconcelos?

A questão sobre o valor da arte ou de uma determinada obra de arte surge quando procuramos fundamentar um julgamento sobre uma peça de arte. Esta consideração ou juízo pessoal implica não só a atribuição de um valor estético mas também um valor cultural, moral ou mesmo económico. Mas quais são os critérios utilizados para justificar a avaliação de um objecto estético?

Pode-se dizer que o valor de uma obra de arte resulta da sua capacidade de comunicar experiências, o que também acontece com um bom vinho. No entanto, neste último caso existe uma maior facilidade e fugacidade na expressão publica da sua qualidade, ou seja, se é bom ou mau, do que em relação a uma obra de arte. Sobre o vinho, por exemplo, em 1976, no Hotel Intercontinental de Paris, numa prova de degustação cega entre vinhos franceses e norte-americanos, realizada por um júri internacional, aos vinhos da Califórnia foram atribuídos os valores mais elevados em todas as categorias. Por outro lado, é paradigmático um paradoxo exposto pelo negociante de vinhos da Califórnia Kermit Lynch: «Pegue em dois vinhos impecáveis. Um rosé Domaine Tempier Bandol e uma garrafa de Chateau Margaux. Compare-os lado a lado. Dê-lhes valores. Não há nenhuma surpresa se o Margaux ganhar com facilidade. Agora sirva os vinhos com uma alcachofra fervida e classifique-os de novo. O Margaux tem um sabor amargo e metálico, enquanto o Bandol rosé é de uma leveza que dança como Baryshnikov».

Também é igualmente absurdo designar categoricamente qual o melhor entre uma pintura de Júlio Pomar ou uma escultura de Joana Vasconcelos. No máximo podemos expressar as nossas preferências. Aqui a questão do valor não é a mesma que a questão da avaliação. Apesar da avaliação estar dependente do valor - pois se é um valor económico a avaliação é realizada de acordo com os critérios que a definem comparativamente com outras obras de arte e, se for um valor cultural, este poderá ser determinado pelas manifestações das realizações humanas quando consideradas por um grupo em particular, por exemplo.

A palavra que resume o que liga o vinho e a arte, é o «gosto». O seu significado (o sabor das coisas ou as preferências estéticas de um cinéfilo, outro caso, ou amante da arte) está dependente da subjectividade dos seres humanos. E é muitas vezes confundido com a questão do valor.

Published at NS'220/IN#116, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51488 e Jornal de Notícias N.º 299/122), 27 de Março de 2010, Portugal. Anya Gallaccio, Motherlode Zinfandel (Olive Block Old Vine, Bedrock Wineyard old Wine, Lumetta Vineyard, Seghesio Home Ranch, Porter Vineyard Old Vine, Sonoma County Appellation blend), 2005-7. Courtesy Lehmann Maupin, Nova Iorque

Tuesday, 16 March 2010

Porquê censurar?

No Verão de 1973, o filme As Lágrimas Amargas de Petra von Kant [Die bitteren Tränen der Petra von Kant] (1972), do alemão Rainer Werner Fassbinder, foi avaliado por uma comissão que o definiu como «um filme de intensidade dramática que respira, desde a primeira à última imagem, um clima de sensualidade e erotismo como raramente têm visto». Por isso a comissão reprovou a sua exibição pública.

Passados 37 anos, em Fevereiro de 2010, o Prémio BES Photo é atribuído a um conjunto de obras onde está exposto publicamente todo o processo de crítica administrado pela censura a esse filme. Os mecanismos de captação e controle temporal são apenas dois dos elementos evidenciados por Filipa César (n. 1975) num corpo mais abrangente sobre o registo da efemeridade dos momentos e dos eventos que definem e caracterizam as circunstâncias da sociedade portuguesa contemporânea.

Na sua sexta edição, o Prémio BES Photo foi atribuído a Filipa César. Helena Almeida (2004), José Luís Neto (2005), Daniel Blaufuks (2006), Miguel Soares (2007) e Edgar Martins (2008) foram os artistas vencedores das edições anteriores.

A última expansão da Iwan Wirth
Enquanto algumas galerias fecham as suas portas ao público e outras reduzem no número de assistentes ou, ainda, prolongam exposições, tendo em vista a redução dos custos fixos, a galeria Hauser & Wirth, com a metodologia suíça que a tem caracterizado, aposta precisamente na expansão. A galeria vai abrir um novo espaço, com cerca de 1.400 metros quadrados (divididos em duas salas), este Outono, na Saville Row. Localizado no centro de Londres, este vem juntar-se aos outros quatro já existentes. Um em Zurique, outro em Nova Iorque e mais dois em Londres (Piccadilly e Old Bond Street). A galeria Hauser & Wirth representa artistas contemporâneos de reconhecido mérito e importância para a história da arte como Louise Bourgeois, Dan Graham, Paul McCarthy ou Anri Sala.

Published at NS'218/IN#114, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51474 e Jornal de Notícias N.º 285/122), 13 de Março de 2010, Portugal. Filipa César, Film Still de Insert, 2010. Courtesy Courtesy Museu Colecção Berardo; Louise Bourgeois, vista da instalação no Centro Pompidou (Paris), 2008. Courtesy Hauser & Wirth Photo: Adam Rzepka

Monday, 15 March 2010

Modelos de gestão para museus

Até que ponto pode a experiência do mundo real ser uma chamada de atenção para os museus em geral?

Recentemente, foi apresentado pelo Ministério da Cultural um estudo que avalia a relevância económica do sector cultural e criativo em Portugal, no qual é aferido o peso do sector na criação de riqueza e emprego. De acordo com os dados apresentados, o sector cultural e criativo foi «responsável por 2,8% de toda a riqueza criada em Portugal no ano de 2006», ao gerar um valor acrescentado bruto de 3.691 milhões de euros.

Durante o período entre 2002 e 2006, apresentou um crescimento cumulativo de 18,6%, ou seja, uma taxa média anual de criação de riqueza na economia nacional de 2,9%.

Um outro factor evidenciado é sobre o volume de emprego: 127 079 empregos em 2006, número que representa 2,6% do emprego nacional. Um crescimento de 4.5% (o crescimento total da economia foi de 0.4%) também demonstra o elevado nível de qualificação e produtividade quando comparado com a média nacional.

A importância destes números para o Ministério da Cultura é demonstrada pelo novo modelo de gestão para os museus portugueses: o de instituições administradas por directores oriundos da área da gestão cultural e com um percurso neste âmbito, por oposições a direcções com um percurso académico na área da história da arte ou da museologia, assessorado por um gestor.

Mas até que ponto pode esta experiência do mundo real ser um chamada de despertar para os museus em geral?

Um dos primeiro exemplos é a situação do Museu de Serralves, em que o director do museu (com responsabilidade a nível da missão e visão, programação da actividades, gestão de colecções e aquisições, etc...) responde perante um director-geral (com responsabilidades ao nível da gestão administrativa e financeira, mecenato, etc...).

Um outro modelo é o de um director originário da área comercial na qual se inscreve o museu. No início do ano, o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, nos EUA, designou como director Jeffrey Deitch, um proeminente comerciante de arte de Nova Iorque. A nível nacional, a atribuição do cargo a um galerista deverá reequilibrar o poder e a energia entre as instituições locais, enquanto, por outro lado, mantém uma atenção especial relativamente à missão e visão do museu, apoiada numa experiência a nível da organização de exposições, trabalho com os artistas, de gerir um espaço comercial, uma galeria de arte.

Published at NS'218/IN#114, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51474 e Jornal de Notícias N.º 285/122), 13 de Março de 2010, Portugal. Noé Sendas, Urban Legends #01-06, 2007. Courtesy Cristina Guerra Contemporary Art

Tuesday, 9 March 2010

Gauguin e Mariza em Maastricht

É a TEFAF (The European Fine Art Fair) que estabelece o padrão para todas os outras feiras e exposições das diversas formas de arte. Presentes na feira estão 165 especialistas internacionais, de diferentes áreas, que constituem os 16 comités de acessibilidade e veto. Estes analisam os mais de cinquenta mil objectos disponíveis para venda pela sua qualidade, autenticidade e condições de forma a garantir a elevada marca identificadora que tem caracterizado a feira de Maastricht (Holanda).

Se por entre as múltiplas presenças os nomes do pintor Paul Gauguin (óleo Deux Femmes, de 1902, está à venda por 18 milhões de euros na Dickison) e da fadista Mariza (concerto no dia 16 de Março) são os mais facilmente reconhecidos do grande público, Luís Alegria (especialista em porcelana chinesa desde o século XV a XIX, mobiliário dos séculos XVII e XVIII e azulejaria portuguesa dos séculos XVII a XIX), do Porto; e Jorge Welsh Porcelana Oriental e Obras de Arte (especializado em porcelana chinesa e obras de arte relacionadas com a expansão territorial portuguesa em África, China, Índia e Japão), com espaços em Lisboa e Londres, são os únicos dois expositores com ligações a Portugal a participar na 23ª edição da feira.

Com mais de 31 mil metros quadrados, a mais importante feira mundial de arte e antiguidades mundial está dividida em nove secções (Antiguidades & Obras de Arte, Pinturas, Desenhos & Impressões, Arte Moderna, TEFAF Design, TEFAF em Papel e TEFAF Showcase), cada uma a representar uma determinada forma de arte e antiguidade. Oriundos de 17 países, são 263 os negociadores de arte e antiguidades reunidos durante uma semana em Maastricht. Com 239 negociantes, a feira, em 2009, atraiu mais de 67 mil visitantes.

Published at NS'217/IN#113, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51467 e Jornal de Notícias N.º 278/122), 6 de Março de 2010, Portugal. Paul Gauguin, Deux Femmes, 1902. Courtesy Dickinson 2010

Monday, 8 March 2010

A crise é a de identidade

A questão principal não assenta na incapacidade de a ARCOmadrid atrair coleccionadores e investidores, mas sim no facto de necessitar de um novo modelo.

Se durante anos a identidade da ARCOmadrid era definida como um lugar de passagem obrigatória para quem estava de acordo com o gosto ou com a forma de viver do momento, actualmente, a mais importante feira de arte contemporânea de Espanha, está a atravessar uma crise de identidade.

Ou seja, a questão principal não assenta na incapacidade de atrair coleccionadores e investidores, mas sim de a feira necessitar de um novo modelo, pois encontra-se no limiar do vazio, resultante de uma imagem alimentada pela exuberância e ostentação dos muitos visitantes que durante anos surgiam com pretensões a coleccionadores – e que entretanto deixaram de estar presentes – e a necessidade de ser o ponto de referência para a arte contemporânea na Península Ibérica e América Latina, depois de surgirem as feiras de Londres e de Miami.

Todavia, sobre os galeristas nacionais presentes na ARCOmadrid, é de salientar a visita dos príncipes das Astúrias ao Solo Project (comissariado por Adriano Pedrosa) de André Romão (1984), representado pela galeria Baginski (Lisboa). Durante esse mesmo dia, as obras presentes no stand da galeria foram adquiridas por um coleccionador português.

Por outro lado, para além da exposição de Miquel Barceló, na Fundación La Caixa, o verdadeiro ponto de interesse na capital espanhola, a nível do mercado, surgiu com a nova feira Just Madrid. Um evento que se pretende como uma plataforma para a apresentação de obras de jovens criadores internacionais, a Just Mad conseguiu deixar bons indícios para os próximos anos, quer a nível de qualidade expositiva, sem ser espectacular, quer de compromisso alternativo, ao procurar apresentar-se a público como um corte com o mercado já estabelecido (representado pela Art Madrid), e com a prepotência das modas e outros costumes passageiros na arte contemporânea (caracterizado pela ARCOmadrid).

Apesar de apresentar algumas sugestões menos conseguidas (é incompreensível a presença de Ana Jotta ou Pedro Calapez, que invariavelmente já são de outro enquadramento económico e transportam consigo outro perfil) a feira apresentava-se com uma equilibrada simplicidade académica qualitativa. Limitadas fisicamente a vinte metros quadrados, as fotografias da dupla Sara & André (os artistas inauguraram recentemente a exposição individual Claim to Fame, no Espaço Fundação PLMJ, em Lisboa) ocupavam todo o stand da 3+1 Arte Contemporânea, na sala La Lonja, com um corpo de trabalho que invoca as implicações intangíveis da economia do sistema artístico. Enquanto na Nave de Terneras, as pinceladas soltas com uma determinada aparência descontraída do espanhol Santiago Ydáñez (1969), no espaço de artistas, Invaliden1 (composto por quatro espanhóis e dois portugueses), localizado em Berlim (Alemanha), atraiam a atenção da maioria dos visitantes.

Published at NS'217/IN#113, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51467 e Jornal de Notícias N.º 278/122), 6 de Março de 2010, Portugal. Vista do stand da Invaliden1, Just Madrid, 2010.

Tuesday, 2 March 2010

Os desvios da arte moderna e contemporânea

Os leilões de arte moderna e contemporânea são reflexo do actual paradigma socioeconómico. Apesar de apresentaram menos obras, quando comparado com o período entre 2005-2008, os recordes sucedem-se para as peças de valor inquestionável. Mas as de menor valor, ou secundárias para a história da arte, ficam por ser compradas, ou tornam-se perecíveis devido ao elevado preço que figuram.

Veja-se, por exemplo, os preços alcançados recentemente no leilão da Sotheby’s de Londres para uma escultura de Alberto Giacometti, ou no leilão de arte contemporânea da Christie’s para um par de sapatos de Joana Vasconcelos. Ambos os artistas registaram valores muito acima do estimado máximo. Com efeito, a escultura L’Homme Qui Marche I, de Giacometti, transformou-se na mais cara obra de arte vendida em leilão.

Esta estratégia de apresentar um número maior de obras de artistas com poucas presenças nos leilões entre 2005 e 2008, de forma a evitar uma paragem nas compras ou uma maior contracção dos preços nos grandes nomes, permitiu limpar o mercado de obras condicionadas por compradores com uma intenção mais especulativa, e o aparecimento de obras mais aprazíveis e de outra frescura.

Durante 2009, as casas leiloeiras claramente decidiram reduzir o número de obras dos artistas contemporâneos mais especulativos. Este foi um ano muito discreto em termos de vendas em leilões, para Damien Hirst, Takashi Murakami, Jeff Koons, Richard Prince ou mesmo Banksy.

Published at NS'216/IN#112, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51460 e Jornal de Notícias N.º 271/122), 27 de Fevereiro de 2010, Portugal. Alberto Giacometti, L’Homme Qui Marche I, 1960. Courtesy Sotheby's 2010