Showing posts with label Opinion. Show all posts
Showing posts with label Opinion. Show all posts

Tuesday, 13 April 2010

Canibalismo cultural de Cristina Lucas

Dominó Canibal é o título atribuído pelo curador mexicano Cuauhtémoc Medina ao projecto de arte contemporânea, em Múrcia (Espanha), no qual a distribuição dos artistas ao longo do ano pretende criar momentos de canibalização estética. Assim, o segundo artista a participar na bienal Proyecto de Arte Contemporánea, Cristina Lucas – depois de Jimmie Durham e antes de Bruce High Quality Foundation –, realizou no passado dia 23 de Março um happening, em que a artista utilizou os elementos recolhidos por Durham para conceber um churrasco. No seu corpo de trabalho, principalmente em vídeo e fotografia, Cristina Lucas (n. 1973) apresenta continuamente uma intervenção estética exercida na apropriação sarcástica de «imagens» de uma variedade de ídolos e estereótipos intelectuais, institucionais e iconográficos, como, por exemplo, as desigualdades sociais em Tú También Puedes Caminar (2006). A transgressão neste novo momento acontece com a passagem de uma suposta disposição exposicional de readymade, concebida anteriormente por Durham, num espaço institucionalizado de poder, para a criação de um evento “relacional” (no seguimento do que é defendido pelo crítico e curador francês Nicolas Bourriaud no livro «Estética Relacional») num espaço externo, nos públicos Jardines del Malecón. O resultado deste «canibalismo cultural» foi gravado e integra a peça de Lucas actualmente em exposição na Sala da Igreja de Verónicas.

Uma pesquisa sobre a memória do espaço
O quarto programa de exposição do espaço Carpe Diem Arte e Pesquisa apresenta os trabalhos Double Lecture de Ângela Ferreira (n. 1958), Abro a Janela e Respiro o Ar Fresco do Fim do Mundo de Álvaro Negro (n. 1973, Espanha), a instalação Invasive Species de Catarina Leitão (n. 1970), o filme e as fotografias A Memória da Memória, de Daniel Blaufuks (n. 1963), e Monólogo Jardim, Palácio Polifonia, um conjunto de trabalhos de Javier Peñafiel (n. 1964, Espanha). A exposição inaugurou no dia 26 de Março, e está patente até ao dia 29 de Maio no antigo Palácio do Marquês de Pombal, em Lisboa.

Published at NS'222/IN#118, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51502 e Jornal de Notícias N.º 313/122), 10 de Abril de 2010, Portugal. Cristina Lucas, Tú También Puedes Caminar, 2006 Courtesy Fundación NMAC Foto: C.L.; Daniel Blaufuks, A Memória da Memória, 2010 Courtesy the artist

Monday, 12 April 2010

A conservação do discurso oficial

Seja o Sudário de Turim uma peça com mais de dois mil anos ou uma falsificação da Idade Média, para milhões de pessoas esta é oficialmente considerada a mortalha fúnebre de Cristo.

Em 2002, o Sudário de Turim foi submetido a uma intervenção radical destinada a garantir a conservação da relíquia. No entanto, e por oposição às actuais percepções de conservação e aos modelos condutores das práticas de restauro defendidos pelos principais organismos internacionais de conservação e restauro, receia-se que o impacto negativo da intervenção seja muito mais substancial do que o da premissa que levou àquele diagnóstico.

Esta intervenção consistiu essencialmente na remoção de pequenos pedaços de material orgânico, aplicados em 1534, para emendar zonas danificadas por um incêndio. Foram aspiradas grandes porções de áreas do sudário para retirar poeiras e outros resíduos. Realizaram-se ainda outras medidas correctivas necessárias para melhorar a aparência visual da relíquia.

Seja o sudário uma peça com mais de dois mil anos ou uma falsificação da Idade Média (séculos XII-XIII) com menos de mil, para milhões de pessoas – também em Portugal – esta é oficialmente considerada a mortalha fúnebre de Cristo. Mas o certo é que o objecto é uma evidência histórica, um artefacto arqueológico de interesse científico devido à origem, ainda por explicar, da impressão de uma imagem – os vestígios de um homem – que tanto é tridimensional como um negativo fotográfico, numa matéria orgânica.

A antítese da função de produção em massa sobre a sua autenticidade – neste caso do Sudário de Turim – consiste no isolamento de um objecto e na sua posterior colocação fora dos limites aceitáveis institucionalmente, por quem tem autoridade para definir esses limites numa comunidade global, enquanto apresenta uma impressão de solidez (actualmente visual) no discurso oficial da edificação e aceitação dos novos limites como já existentes.

O estratagema de um bom plano de marketing, principalmente numa sociedade construída sob uma premissa católica, consiste em criar a ilusão de escassez, ao jogar com a obscura nostalgia de privação, enquanto nega a existência de quantidade. Esta função parece justificar a precariedade que afecta toda a paisagem cultural contemporânea, ou seja, no processo de desordenação que distingue a nossa época.

Published at NS'222/IN#118, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51502 e Jornal de Notícias N.º 313/122), 10 de Abril de 2010, Portugal. Imagem frontal do Sudário de Turim como foi fotografado em 1898 Courtesy : Aldo Guerreshic (todos os direitos reservados

Tuesday, 6 April 2010

Vendas sólidas em Maastricht

A feira de arte TEFAF Maastricht é frequentemente descrita como «um museu onde tudo está à venda e onde os comerciantes, em exposição, apreciam o facto de a feira ser levada a sério pelos museus de todo o mundo».

Além dos 171 aviões privados que aterraram no aeroporto de Maastricht/Aachen (82 jactos privados só no primeiro dia) durante o decorrer da feira, mais de 150 representantes de museus de 17 países, como foi o caso do National Gallery of Art de Washington DC (EUA), a visitar a feira.

Na secção de arte moderna e contemporânea a galeria Hauser & Wirth (com espaços em Zurique, Londres e Nova Iorque) vendeu uma pintura (Sem Título, 1960), de Eva Hesse, por €550 mil, enquanto a Gallery Thomas (Munique), vendeu um guache (Walking Couple, 1916) de Wassily Kandinsky (1866-1944), avaliado em cerca de €400 mil.

A nível das antiguidades, o comerciante Rupert Wave (Londres), vendeu uma máscara em madeira de uma múmia egípcia (1069-715 a.C.), com o preço de €150 mil, a um coleccionador privado.

De acordo com informações facilitadas pela organização da feira, «as vendas foram fortes, em particular as obras novas no mercado.»

Os diferentes espaços Schengen
A globalização gerou uma cultural acessível a todos. Na Europa, o espaço Schengen representa um território no qual a livre circulação das pessoas garante o acesso a esse sonho modernista de uma humanidade única. Mas, afinal, porque é que a diversidade cultural deve ser preferível à partilha de uma única cultura, comum a todas as pessoas? As imagens fotográficas de Délio Jasse (com preços aproximadamente de mil euros, por cada peça) reflectem as raízes do passado colonial português e as delimitação das exclusões internas e das inclusões externas que estão reflectidas. Questionam a autoridade policial e judicial que garante a segurança no espaço Schengen, mas também a diversidade cultural nacional.

Published at NS'221/IN#117, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51495 e Jornal de Notícias N.º 306/122), 3 de Abril de 2010, Portugal. TEFAF Maastricht 2010, Foto: Bastiaan van Musscher; Délio Jasse, Voo Luanda-Lisboa (emulsão fotográfica sobre papel fabiano, 200x140cm), 2010. Courtesy Galeria Baginski

Monday, 5 April 2010

A contínua reformulação do mercado

O último relatório apresentado pela agência de informação francesa Artprice veio provar que o mercado teve uma maior capacidade de adaptação e recuperação agora do que durante a crise de 1991.

Os dados referentes ao primeiro semestre de 2010 e ao ano de 2009 vêm confirmar que este é ainda um tempo de contínua reformulação para o mercado da arte. Os leilões vão continuar a apresentar menos lotes quando comparados com o período anterior a Setembro de 2008, e muitas vendas vão realizar-se a nível privado.

Como é expresso por alguns coleccionadores privados, hoje os leilões são os lugares privilegiados para adquirir obras de arte contemporânea, pois muitos valores apresentados em leilão são menores do que os praticados ainda por algumas galerias nacionais que, por razões de posicionamento no mercado, dificilmente podem alterar os valores anteriormente praticados.

Por exemplo, se entre 2002 e 2008 o maior volume de vendas em leilões era obtido por artistas contemporâneos, como Andy Warhol, Gerhard Richter, Jean-Michel Basquiat ou Damien Hist, em 2009 estes foram substituídos por Pablo Picasso (1881-1973), Qi Baishi (1864-1957) ou Raphael (1483-1520) como os artistas com maior procura.

Ao longo de 2009, pelo menos 50% de todas as vendas realizadas no mercado da arte global efectuaram-se na Europa, enquanto 55% de todas as vendas globais foram geradas por comerciantes, como galeristas ou leiloeiras.

O último relatório apresentado pela agência de informação francesa Artprice sobre as tendências do mercado artístico durante 2009 veio provar que o mercado teve maior capacidade de adaptação e recuperação agora do que durante a crise de 1991. Enquanto o relatório apresentado pela feira TEFAF Maastricht sobre o mercado da arte, em 2009, estima uma circulação de capitais na ordem dos 31,3 mil milhões de euros, quando, em 2007, foi estimado em cerca de 48,1 mil milhões de euros.

Depois dos anos de euforia e de preços inflacionados para além do razoável, as principais casas leiloeiras fizeram concessões consideráveis para evitar o congelamento completo do mercado: redução de pessoal; das reestruturações internas e confluência de alguns departamentos; vendas temáticas; a redução do preço de reserva e a garantia de preço (preço combinado entre a leiloeira e o vendedor antes do leilão); revisão das estimativas; redução do número de catálogos e de densidade (menos lotes oferecidos), etc.

Quanto ao mercado das feiras, assistiu-se simultaneamente a uma fragmentação local e especialização das ofertas, como foi o caso das recentes feiras paralelas em Nova Iorque, durante a Armory Show, ou em Madrid, durante a ARCOmadrid, ou ainda a criação de novas áreas expositivas na feira TEFAF, de Maastricht.

Published at NS'221/IN#117, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51495 e Jornal de Notícias N.º 306/122), 3 de Abril de 2010, Portugal. Pablo Picasso, Mousquetaire à la Pipe (óleo sobre tela), 1968. Courtesy Christie’s 2010

Monday, 29 March 2010

Uma questão de gosto

É possível designar categoricamente qual a melhor entre uma pintura de Júlio Pomar e uma escultura de Joana Vasconcelos?

A questão sobre o valor da arte ou de uma determinada obra de arte surge quando procuramos fundamentar um julgamento sobre uma peça de arte. Esta consideração ou juízo pessoal implica não só a atribuição de um valor estético mas também um valor cultural, moral ou mesmo económico. Mas quais são os critérios utilizados para justificar a avaliação de um objecto estético?

Pode-se dizer que o valor de uma obra de arte resulta da sua capacidade de comunicar experiências, o que também acontece com um bom vinho. No entanto, neste último caso existe uma maior facilidade e fugacidade na expressão publica da sua qualidade, ou seja, se é bom ou mau, do que em relação a uma obra de arte. Sobre o vinho, por exemplo, em 1976, no Hotel Intercontinental de Paris, numa prova de degustação cega entre vinhos franceses e norte-americanos, realizada por um júri internacional, aos vinhos da Califórnia foram atribuídos os valores mais elevados em todas as categorias. Por outro lado, é paradigmático um paradoxo exposto pelo negociante de vinhos da Califórnia Kermit Lynch: «Pegue em dois vinhos impecáveis. Um rosé Domaine Tempier Bandol e uma garrafa de Chateau Margaux. Compare-os lado a lado. Dê-lhes valores. Não há nenhuma surpresa se o Margaux ganhar com facilidade. Agora sirva os vinhos com uma alcachofra fervida e classifique-os de novo. O Margaux tem um sabor amargo e metálico, enquanto o Bandol rosé é de uma leveza que dança como Baryshnikov».

Também é igualmente absurdo designar categoricamente qual o melhor entre uma pintura de Júlio Pomar ou uma escultura de Joana Vasconcelos. No máximo podemos expressar as nossas preferências. Aqui a questão do valor não é a mesma que a questão da avaliação. Apesar da avaliação estar dependente do valor - pois se é um valor económico a avaliação é realizada de acordo com os critérios que a definem comparativamente com outras obras de arte e, se for um valor cultural, este poderá ser determinado pelas manifestações das realizações humanas quando consideradas por um grupo em particular, por exemplo.

A palavra que resume o que liga o vinho e a arte, é o «gosto». O seu significado (o sabor das coisas ou as preferências estéticas de um cinéfilo, outro caso, ou amante da arte) está dependente da subjectividade dos seres humanos. E é muitas vezes confundido com a questão do valor.

Published at NS'220/IN#116, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51488 e Jornal de Notícias N.º 299/122), 27 de Março de 2010, Portugal. Anya Gallaccio, Motherlode Zinfandel (Olive Block Old Vine, Bedrock Wineyard old Wine, Lumetta Vineyard, Seghesio Home Ranch, Porter Vineyard Old Vine, Sonoma County Appellation blend), 2005-7. Courtesy Lehmann Maupin, Nova Iorque

Monday, 15 March 2010

Modelos de gestão para museus

Até que ponto pode a experiência do mundo real ser uma chamada de atenção para os museus em geral?

Recentemente, foi apresentado pelo Ministério da Cultural um estudo que avalia a relevância económica do sector cultural e criativo em Portugal, no qual é aferido o peso do sector na criação de riqueza e emprego. De acordo com os dados apresentados, o sector cultural e criativo foi «responsável por 2,8% de toda a riqueza criada em Portugal no ano de 2006», ao gerar um valor acrescentado bruto de 3.691 milhões de euros.

Durante o período entre 2002 e 2006, apresentou um crescimento cumulativo de 18,6%, ou seja, uma taxa média anual de criação de riqueza na economia nacional de 2,9%.

Um outro factor evidenciado é sobre o volume de emprego: 127 079 empregos em 2006, número que representa 2,6% do emprego nacional. Um crescimento de 4.5% (o crescimento total da economia foi de 0.4%) também demonstra o elevado nível de qualificação e produtividade quando comparado com a média nacional.

A importância destes números para o Ministério da Cultura é demonstrada pelo novo modelo de gestão para os museus portugueses: o de instituições administradas por directores oriundos da área da gestão cultural e com um percurso neste âmbito, por oposições a direcções com um percurso académico na área da história da arte ou da museologia, assessorado por um gestor.

Mas até que ponto pode esta experiência do mundo real ser um chamada de despertar para os museus em geral?

Um dos primeiro exemplos é a situação do Museu de Serralves, em que o director do museu (com responsabilidade a nível da missão e visão, programação da actividades, gestão de colecções e aquisições, etc...) responde perante um director-geral (com responsabilidades ao nível da gestão administrativa e financeira, mecenato, etc...).

Um outro modelo é o de um director originário da área comercial na qual se inscreve o museu. No início do ano, o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, nos EUA, designou como director Jeffrey Deitch, um proeminente comerciante de arte de Nova Iorque. A nível nacional, a atribuição do cargo a um galerista deverá reequilibrar o poder e a energia entre as instituições locais, enquanto, por outro lado, mantém uma atenção especial relativamente à missão e visão do museu, apoiada numa experiência a nível da organização de exposições, trabalho com os artistas, de gerir um espaço comercial, uma galeria de arte.

Published at NS'218/IN#114, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51474 e Jornal de Notícias N.º 285/122), 13 de Março de 2010, Portugal. Noé Sendas, Urban Legends #01-06, 2007. Courtesy Cristina Guerra Contemporary Art

Monday, 8 March 2010

A crise é a de identidade

A questão principal não assenta na incapacidade de a ARCOmadrid atrair coleccionadores e investidores, mas sim no facto de necessitar de um novo modelo.

Se durante anos a identidade da ARCOmadrid era definida como um lugar de passagem obrigatória para quem estava de acordo com o gosto ou com a forma de viver do momento, actualmente, a mais importante feira de arte contemporânea de Espanha, está a atravessar uma crise de identidade.

Ou seja, a questão principal não assenta na incapacidade de atrair coleccionadores e investidores, mas sim de a feira necessitar de um novo modelo, pois encontra-se no limiar do vazio, resultante de uma imagem alimentada pela exuberância e ostentação dos muitos visitantes que durante anos surgiam com pretensões a coleccionadores – e que entretanto deixaram de estar presentes – e a necessidade de ser o ponto de referência para a arte contemporânea na Península Ibérica e América Latina, depois de surgirem as feiras de Londres e de Miami.

Todavia, sobre os galeristas nacionais presentes na ARCOmadrid, é de salientar a visita dos príncipes das Astúrias ao Solo Project (comissariado por Adriano Pedrosa) de André Romão (1984), representado pela galeria Baginski (Lisboa). Durante esse mesmo dia, as obras presentes no stand da galeria foram adquiridas por um coleccionador português.

Por outro lado, para além da exposição de Miquel Barceló, na Fundación La Caixa, o verdadeiro ponto de interesse na capital espanhola, a nível do mercado, surgiu com a nova feira Just Madrid. Um evento que se pretende como uma plataforma para a apresentação de obras de jovens criadores internacionais, a Just Mad conseguiu deixar bons indícios para os próximos anos, quer a nível de qualidade expositiva, sem ser espectacular, quer de compromisso alternativo, ao procurar apresentar-se a público como um corte com o mercado já estabelecido (representado pela Art Madrid), e com a prepotência das modas e outros costumes passageiros na arte contemporânea (caracterizado pela ARCOmadrid).

Apesar de apresentar algumas sugestões menos conseguidas (é incompreensível a presença de Ana Jotta ou Pedro Calapez, que invariavelmente já são de outro enquadramento económico e transportam consigo outro perfil) a feira apresentava-se com uma equilibrada simplicidade académica qualitativa. Limitadas fisicamente a vinte metros quadrados, as fotografias da dupla Sara & André (os artistas inauguraram recentemente a exposição individual Claim to Fame, no Espaço Fundação PLMJ, em Lisboa) ocupavam todo o stand da 3+1 Arte Contemporânea, na sala La Lonja, com um corpo de trabalho que invoca as implicações intangíveis da economia do sistema artístico. Enquanto na Nave de Terneras, as pinceladas soltas com uma determinada aparência descontraída do espanhol Santiago Ydáñez (1969), no espaço de artistas, Invaliden1 (composto por quatro espanhóis e dois portugueses), localizado em Berlim (Alemanha), atraiam a atenção da maioria dos visitantes.

Published at NS'217/IN#113, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51467 e Jornal de Notícias N.º 278/122), 6 de Março de 2010, Portugal. Vista do stand da Invaliden1, Just Madrid, 2010.

Tuesday, 2 March 2010

Os desvios da arte moderna e contemporânea

Os leilões de arte moderna e contemporânea são reflexo do actual paradigma socioeconómico. Apesar de apresentaram menos obras, quando comparado com o período entre 2005-2008, os recordes sucedem-se para as peças de valor inquestionável. Mas as de menor valor, ou secundárias para a história da arte, ficam por ser compradas, ou tornam-se perecíveis devido ao elevado preço que figuram.

Veja-se, por exemplo, os preços alcançados recentemente no leilão da Sotheby’s de Londres para uma escultura de Alberto Giacometti, ou no leilão de arte contemporânea da Christie’s para um par de sapatos de Joana Vasconcelos. Ambos os artistas registaram valores muito acima do estimado máximo. Com efeito, a escultura L’Homme Qui Marche I, de Giacometti, transformou-se na mais cara obra de arte vendida em leilão.

Esta estratégia de apresentar um número maior de obras de artistas com poucas presenças nos leilões entre 2005 e 2008, de forma a evitar uma paragem nas compras ou uma maior contracção dos preços nos grandes nomes, permitiu limpar o mercado de obras condicionadas por compradores com uma intenção mais especulativa, e o aparecimento de obras mais aprazíveis e de outra frescura.

Durante 2009, as casas leiloeiras claramente decidiram reduzir o número de obras dos artistas contemporâneos mais especulativos. Este foi um ano muito discreto em termos de vendas em leilões, para Damien Hirst, Takashi Murakami, Jeff Koons, Richard Prince ou mesmo Banksy.

Published at NS'216/IN#112, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51460 e Jornal de Notícias N.º 271/122), 27 de Fevereiro de 2010, Portugal. Alberto Giacometti, L’Homme Qui Marche I, 1960. Courtesy Sotheby's 2010

Monday, 1 March 2010

The Armory Show arrisca na expansão

Apesar da crise e dos factores de perturbação, a principal feira de arte dos Estados Unidos aposta no aumento de expositores.

Um ano de transformações, é o que o ano de 2010 vai continuar a ser. Segundo os múltiplos indicadores, e se entretanto não existirem novos choques significativos na economia mundial, este ano deverá ser melhor do que o ano anterior. Os dados referentes aos valores dos leilões de Fevereiro, em Londres, indicam resultados acima dos de 2009, para mais do dobro.

Durante o mês de Março, o circuito internacional de arte composto por artistas, galeristas, coleccionadores, críticos e curadores de todo o mundo viajam desta vez para Nova Iorque. Uma reunião de forma a apreciar e avaliar o momento actual do mercado da arte moderna e contemporânea, enquanto neste período de maior contenção financeira se perspectivam quais as tendências artísticas futuras.

Apesar de o mercado da arte estar a passar nestes dois últimos anos por um período de reestruturação e a desembaraçar-se de factores perturbantes, The Armory Show (assim chamada em homenagem à 1.ª Exposição Internacional de Arte Moderna em Nova Iorque, que teve lugar em 1913 no arsenal – armory – da Guarda Nacional nova-iorquina) seguiu em direcção oposta ao que seria imposto pela limitada liquidez dos mercados financeiros, por exemplo, como aconteceu por exemplo com a ARCOmadrid. Ou seja, ao invés de reduzir o número de expositores (239 stands, em 2009) este ano há um acréscimo para 285 stands. A 12ª edição da feira internacional de arte nova apresenta 167 comerciantes de arte contemporânea, 66 de arte moderna e dez instituições sem fins lucrativos.

Além das galerias originárias do mercado norte-americano, é possível encontrar na feira galerias oriundas de outros países: a Galeria Luciana Brito (Brasil); Galerie Nathalie Obadia (França); Oliva Arauna (Espanha); Hauser & Wirth (Suíça); White Cube ou Greengrassi (Reino Unido), e a Galeria Filomena Soares (Pier 94), de Lisboa. A feira em 2009 atraiu 56 mil visitantes.

Em doze anos, The Armory Show conseguiu tornar-se numa instituição internacional. Actualmente é considerada como a mais proeminente feira dos Estados Unidos da América dedicada à promoção e difusão da arte dos séculos XX e XXI. Um dos suportes desta importância está no número de eventos a decorrerem em simultâneo com a feira: The Art Show, Dutch Art Now, Korean Art Show, Scope, Pulse, Volta, PooL, Fountain, Red Hot, Independent, Verge e Critical Design (as três últimas são novas entradas). Se, no ano passado, a questão era quais as galerias que iriam fechar as suas portas; actualmente a questão está em, quais as feiras que vão conseguir sobreviver para além de 2010?

Published at NS'216/IN#112, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51460 e Jornal de Notícias N.º 271/122), 27 de Fevereiro de 2010, Portugal. The Armory Show 2009, vista geral da feira 2009. Courtesy David Willems

Monday, 15 February 2010

Oportunidades de Trabalho

Um estudo do governo norte-americano prevê o crescimento na empregabilidade dos curadores de 23 por cento nos próximos anos, implicando alguma transversalidade e internacionalização.

Na sociedade contemporânea, o papel do curador de arte está relacionado com os mecanismos de apresentação de exposições e com toda a esfera discursiva que envolve essas encenações. Mas, em termos etimológicos, a palavra «curador» alarga-se também a alguém que é conhecedor de substâncias vegetais usadas para administrar em pessoas ou corpos – a pharmakeia (a antepassada da farmácia) –, ou quem tem a autoridade para conduzir espiritualmente uma comunidade.

Segundo dados do estudo Occupational Outlook Handbook, 2010-11 Edition (Manual do Panorama Ocupacional), sobre Arquivistas, Curadores e Técnicos de Museus, conduzido pelo Bureau of Labor Statistics, do Ministério do Trabalho dos EUA, prevê-se um crescimento na empregabilidade dos curadores de 23 por cento nos próximos anos.

Este crescimento acarretará, provavelmente, alguma transversalidade e internacionalização, a exemplo do que, de resto, acontece noutras áreas do desenvolvimento humano em função do carácter globalizante que as sociedades tendem a assumir. Nessa óptica, é já paradigmática a mobilização de personalidades de diversas proveniências no âmbito das actividades das feiras de arte nos nossos dias.

«Não há uma linha conceitual, apenas a oportunidade de dar espaço à pesquisa de um curador brasileiro em Portugal, Espanha e França», expressa Adriano Pedrosa sobre a sua participação na ARCOmadrid, este ano, como um dos curadores convidados da secção Solo Projects.

Mauro Cerqueira (1982) e André Romão (1984), oriundos de uma cena artística que Pedrosa tem vindo a pesquisa há uma década, são os dois jovens artistas portugueses que seleccionou. Os outros dois artistas são Aurelient Fromment (1976) de França e o Basco Juan Pérez Agirregoikoa (1963). «Estou muito entusiasmado com a oportunidade de mostrar dois artistas portugueses na ARCOmadrid», acrescenta Adriano Pedrosa.

No panorama actual, a natureza crítica da teoria pós-colonial implica a desestabilização da forma de pensar ocidental (EUA e Europa). Cria espaços para o subalterno ou grupos marginalizados falarem ou produzirem alternativas ao discurso dominante. E, embora seja um prazer especial para um estrangeiro apresentar artistas locais, o que realmente importa na selecção destes quatro artistas é a complexidade e a singularidade de cada uma produções, conforme é defendido pelo curador.

Complementar ao Programa Geral e à secção ARCO 40, a secção Solo Projects apresenta projectos de um artista individualmente seleccionados por uma equipa de comissários internacionais designado pela ARCOmadrid.

Curadores portugueses
Inserido na secção Curators’ Desks, destaca-se o projecto apresentado por Filipa Oliveira + Miguel Amado, que tem como ponto de encontro a repercussão e a difusão da obra dos artistas num espaço independente. Neste caso em particular, a discussão de temas da actualidade ao envolver «artistas, profissionais e público numa plataforma discursiva que evoca a radicalidade das tradições pedagógicas artísticas.»

O projecto apresentado pelo colectivo curatorial é inspirado na frase do filósofo Bertrand Russell: «Para saber algo sobre a mesa, temos que conhecer verdades que a relacionem com as coisas que conhecemos». Intitula-se Sobre a Mesa e «significa que, se uma ideia foi apresentada, disponibilizou-se para o debate público. Sendo “mesa” um objecto, “sobre a” sugere as dimensões simbólicas a si sempre associadas, que incluem comer e beber, trabalhar e falar». A iniciativa compreende dois momentos distintos: uma conversa de tópico livre entre um comissário e um artista, e uma performance-lecture instigada por um artista – este são seleccionados através de uma open call internacional.

Filipa Oliveira + Miguel Amado formam um colectivo curatorial criado em 2004, com sede em Lisboa. Das várias exposições e múltiplos projectos organizado pela dupla, destaca-se Impossible Exchange, apresentado na última edição feira de arte de Londres inserido no Frieze Projects.

Published at NS'214/IN#110, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51446 e Jornal de Notícias N.º 257/122), 13 de Fevereiro de 2010, Portugal. André Romão, delfi, 2009. Courtesy Baginski Galeria/Projectos

Tuesday, 9 February 2010

Imagens de assuntos banais

Peter Piller (1968, Alemanha) amplia as cópias de imagens sem foco substancial ou pormenor significativo e classifica e cataloga numa ordem não cronológica narrativas já fragmentadas. As fotografias são retiradas de jornais regionais alemães ou da colecção de imagens aéreas, de habitações, compradas a uma empresa cujo negócio encerrou na década de oitenta do passado século. Posteriormente, estas imagens são nominadas e organizadas tematicamente em clusters visuais de acordo com o acaso do gosto momentâneo do fotógrafo ou por índices visuais: círculos, setas ou carros dos fotógrafos – Fotografenauto [O Carro do Fotógrafo], por exemplo. Ao mesmo tempo, tornam-se numa oportunidade para o observador reflectir sobre os comportamentos sociais, significados históricos ou sobre a linearidade do pensamento. Em 2006, um conjunto de imagens intitulado Ungeklärte Fälle [Casos por Esclarecer] estava à venda por 37 mil euros na feira da arte de Basileia (Suíça). Presentemente, pode ser visto um largo conjunto de imagens deste fotógrafo alemão na exposição Regionales Leuchten [Brilho Regional], na Marz-Galeria (Lisboa), com valores que vão de 1500 euros a seis mil euros para algumas das imagens.

Uma pesquisa sobre o mundo contemporâneo
Inaugurou recentemente a Whitney Biennial, a mostra da arte norte-americana contemporânea que decorre no Whitney Museum of American Art (Nova Iorque), entre 25 de Fevereiro e 30 de Maio. Com 55 artistas, a edição deste ano, sem tema, apresenta-se como uma snapshot do estado actual da arte contemporânea, mas também da realidade em geral. Assim, ao invés de ser uma sucessão de mini-retrospectivas sob o mesmo título, e ao contrário de anos anteriores, a bienal apresenta unicamente uma obra ou uma série por autor.

Published at NS'213/IN#109, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51439 e Jornal de Notícias N.º 250/122), 6 de Fevereiro de 2010, Portugal. Vista da exposição, Peter Piller, Regionales Leuchten, Marz-Galeria; Josephine Meckseper, Mall of America (vídeo, transferido para DVD, cor, som, 12:48min), 2001. Collection of the artist; Courtesy VG Bild-Kunst, Bonn

Monday, 8 February 2010

Os objectos do quotidiano contemporâneo

O sapato Marilyn, como metáfora da feminilidade.

Uma metáfora das expectativas e inclinações da feminilidade contemporânea: eis o sapato Marilyn. Esta e outras peças formadas por tachos e tampas em aço inox, às quais são atribuídos nomes de mulheres importantes na cultura popular. Carmen Miranda, por exemplo, é um dos nomes escolhidos por Joana Vasconcelos. As diferentes denominações contribuem para a multiplicidade de significados que as suas obras geram.

Ao explorar assuntos da esfera privada e pública, Joana Vasconcelos debate o papel tradicionalmente reservado à mulher. Conforme questiona, «as panelas são etnografia portuguesa? Não! Os talheres de plástico? Também não! São produtos culturais de uso corrente, são as formas conscientemente ignoradas do nosso quotidiano». E complementa ao afirmar que as suas peças «funcionam como uma ignição para questionar as nossas decisões e afirmações quotidianas.»

No universo artístico, uma das questões é o que a utilização de objectos do quotidiano pode dizer sobre o nosso tempo. Normalmente, esses objectos são usados para análise e estudo, quer pelos arqueólogos, sobre a história humana e através da análise de artefactos, quer pelos sociólogos, sobre o desenvolvimento, estrutura e funcionamento da sociedade humana.

Mas outra das questões é como avaliar quantitativamente uma peça de arte com menos de um ano de existência, quando ainda não teve o tempo necessário para ser inscrita no circuito de validação de obras de arte!

Concebido á menos de um ano, o sapato Marilyn, que está estimado entre 110 mil e 170 mil euros (£100 000-£150 000), é um dos 52 lotes à venda no leilão de arte contemporânea promovido pela casa Christie’s, de Londres, no dia 11 de Fevereiro.

Em Junho de 2009, a peça Coração Independente Dourado (2004) foi vendida em leilão também da Christie’s, por 129 mil euros.

Published at NS'213/IN#109, Mercado da Arte (68), (Diário de Notícias N.º 51439 e Jornal de Notícias N.º 250/122), 6 de Fevereiro de 2010. Portugal Joana Vasconcelos, Marilyn, 2009. Courtesy Christie's 2010

Tuesday, 2 February 2010

235 milhões de euros por 534 obras de arte

Durante esta semana realizam-se os leilões de impressionismo e arte moderna na Christie’s (dia 2 e 3 de Fevereiro) e na Sotheby’s (dia 3 e 4 de Fevereiro) de Londres. Entre as múltiplas obras impressionistas e de arte moderna, as duas leiloeiras apresentam uma selecção de pinturas, esculturas e obras sobre papel com o valor total estimado entre 163 milhões de euros e 235 milhões de euros, para um total de 534 lotes.

A atenção da leiloeira e de qualquer apreciador estará concentrada em três dos lotes apresentadas pela Sotheby’s (no dia 3 de Fevereiro), as pinturas a óleo Pichet et Fruits Sur Une Table, de 1893-94 (proveniente de uma colecção privada europeia), de Paul Cézanne, e Kirche in Cassone (Landschaft Mit Zypressen), de 1913 (este óleo sobre tela desapareceu da colecção de familiares do industrial do aço Austro-húngaro Viktor e Paula Zuckerkandl durante o período da Segunda Grande Guerra, e foi entretanto restituída aos seus descendentes), de Gustav Klimt, e a escultura L’Homme Qui Marche I, concebida em 1960 (da propriedade da instituição financeira Dresdner Bank AG), de Alberto Giacometti. Cada uma das peças está estimada por um valor superior a onze milhões de euros.

É raro apareceram no mercado peças desta qualidade, mas a selecção conduzida pelas diferentes casas leiloeiras e a importância da peças apresentadas só vêm confirmar o interesse dos coleccionadores em obras já emolduradas pela história da arte.

Published at NS'212/IN#108, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51432 e Jornal de Notícias N.º 243/122), 30 de Janeiro de 2010. Portugal Gustav Klimt, Kirche in Cassone (Landschaft Mit Zypressen), 1913. Courtesy Sotheby's 2010

Monday, 1 February 2010

Espacio Atlántico

Fica na Galiza o novo lugar de peregrinação do mercado artístico português.

O Espacio Atlântico, em Vigo, apareceu este ano como uma nova feira para a arte contemporânea na Galiza (Espanha). Pelos Caminhos de Santiago, uma nova atitude e intenção no mercado da arte suportou a transformação de uma rudimentar área de comércio de arte num espaço de apreciação e compromisso qualitativo e quantitativo para com a arte contemporânea a norte de Portugal.

Com mais de trinta mil visitantes durante quatro dias, este novo lugar de peregrinação do universo artístico nacional permitiu também compreender o estado do mercado da arte contemporânea na Península Ibérica, e perceber quais as dinâmicas económicas a nível dos coleccionadores e dos galeristas, a um mês de distância da mais importante feira internacional de arte contemporânea de Espanha e, por conseguinte, para muitas galerias portuguesas, a ARCOmadrid.

Além da alteração do nome (nos três anos anteriores tinha o nome de Puro Arte) e da nomeação de um novo director artístico (o crítico de arte e curador galego David Barro), para a directora-geral da feira, Marta Scarpellini, a diferença entre esta nova feira e as edições anteriores está «fundamentalmente na qualidade, as galerias presentes trouxeram o melhor que tinham nos seus espaços».

David Barro seleccionou e atraiu à Galiza algumas das mais interessantes galerias de Espanha, como por exemplo Fernando Pradilla, Fúcares, Heinreich Enrhardt, Magda Bellotti ou Maisterravalbuena, todas de Madrid. Num total de 52 galerias de arte contemporânea surgiram incluídas ainda 15 galerias oriundas de Portugal – o galerista portuense José Mário Brandão (director da galeria Graça Brandão), Maria Arlete Alves da Silva e Rui Brito (Galeria 111) ou ainda Jorge Viegas e Lúcio Albuquerque (directores da 3 + 1 arte contemporânea), de Lisboa, foram alguns dos dealers presentes.

De acordo com informações adquiridas junto de alguns galeristas e compradores, durante o primeiro dia foram adquiridas obras de artistas por um valor global superior a quinhentos mil de euros. Um dos casos foi uma instalação de Albano Afonso (representado pela galeria Graça Brandão) adquirida por uma colecção privada, por 15 mil euros.

Distante da polémica que está a condicionar a realização da ARCOmadrid deste ano, e da emergência de mais uma feira periférica (a Just Madrid), o coleccionador galego Carlos Rosón (presidente da Fundación RAC, de Pontevedra) considerou o Espacio Atlántico um evento «importante para os coleccionadores Galegos e do norte de Portugal, mas também é importante que uma feira como esta aconteça na Galiza».

Published at NS'212/IN#108, Mercado da Arte (70), (Diário de Notícias N.º 51432 e Jornal de Notícias N.º 243/122), 30 de Janeiro de 2010. Portugal © Miguel Calvo 2010, Courtesy Espacio Atlántico

Tuesday, 26 January 2010

Mecenato de iniciativas culturais

André Cepeda (1976), Filipa César (1975) e Patrícia Almeida (1970) foram os fotógrafos seleccionados para a 6ª edição do BESphoto. O prémio BESphoto, no valor de 25 mil euros, é uma iniciativa do Banco Espírito Santo em parceria com o Museu Colecção Berardo que procura premiar os criadores portugueses ou residentes em Portugal que tenham apresentado trabalhos fotográficos, neste caso, entre 2008 e 2009. O resultado do trabalho desenvolvido durante os últimos meses pelos três fotógrafos (foi atribuído a cada fotógrafo uma bolsa de produção), seleccionados por um júri constituído por Delfim Sardo (curador, critico de arte e professor), Miguel von Hafe Pérez (curador, critico de arte e director do CGAC, de Santiago de Compostela, Espanha) e Nuno Crespo (crítico de arte), vai estar patente no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, entre os dias 1 de Fevereiro e 4 de Abril. No seu conjunto os três fotógrafos apresentam um corpo de trabalho que explora as relações e comportamentos sociais contemporâneos.

O compromisso italiano com a arte
Na noite de 30 de Janeiro, a cidade de Bologna (Itália) transforma-se numa vitrina de excelência para a exposição de arte contemporânea enquanto cria uma oportunidade única para o público entrar em contacto com críticos, artistas e figuras proeminentes do meio artístico italiano. Juntamente à realização da feira internacional de arte contemporânea, ArteFiera Art First 2010, de 29 a 31 de Janeiro, mais de quarenta instituições, museus, galerias, palácios históricos e lojas situadas no centro histórico da cidade apresentam um programa expositivo e concertos durante todo a noite. A maioria das 170 galerias participantes na feira é originária deste país.

Published at NS'211/IN#107, Mercado da Arte (62), (Diário de Notícias N.º 51427 e Jornal de Notícias N.º 236/122), 23 de Janeiro de 2010. Portugal André Cepeda, da série River, 2008 Courtesy the Artist; Thomas Ruff, ts01, 2006. Cortesy Galerria Lia Rumma, Napoli/Milano

Monday, 25 January 2010

As grandes obras

A ambição devia estar para com a programação artística e cultura, não para com os edifício.

Num período de grande apoio financeiro a Portugal por parte da União Europeia, obras como o Centro Cultural de Belém (construído durante o governo de Cavaco Silva) ou o projecto do Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa (durante o governo de António Guterres) foram consideradas uma forma de atrair desenvolvimento económico e turístico. Agora, em tempos de contracção económica. Os projectos ambiciosos (por exemplo, a construção do novo aeroporto, do comboio de alta velocidade ou do novo museu para os coches) visando a perpetuação do nome na história começam a fazer pouco sentido.

Um dos argumentos para isso é que, nos últimos cinco anos, administradores e directores das diversas instituições públicas sucumbiram à exuberância irracional de rivalizar com o universo bancário e com o frenesim da construção (veja-se o caso da ilha artificial, com forma de palmeira, construída no Dubai, que agora não encontra compradores).

Depois de anos de entusiasmo bolsista, em 2008 a sociedade civil percebeu-se do vazio financeiro em que se encontrava esse mercado. Com as consequências que se tornaram visíveis em Setembro daquele ano e ainda sentidas no nosso dia-a-dia, pois a crise está a expor a fragilidade social economicamente sobrecarregada e a má gestão e planificação dos recursos e da riqueza existente.

Os edifícios ou as construções com alguma importância custam dinheiro para serem mantidos e com o tempo deterioram-se. Estas edificações em si tornam-se em custos públicos.

Como no quotidiano social, nas artes também as grandes obras desencarnam o conteúdo enquanto perpetuam a existência de um corpo morto-vivo, de um espaço que existe sem funcionamento interno. A nível global, muitos profissionais da arte descrevem os seus edifícios como casos de necessidade: de aumentar o espaço expositivo para poder expor as obras em acervo; precisam de espaços de lazer agradáveis para receber os visitantes; necessitam de um edifício que esteja de acordo com a presentes normas. A ambição devia de estar para com a programação, não para com o edifício.

Que o digam os museus nacionais, quase todos com dificuldades de funcionamento, reduzidos recursos financeiros e ausência de uma boa gestão económica e de recursos humanos. São inúmeros os exemplos: o Museu de Évora, o Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado), o Museu de Arte Popular, o Museu Nacional de Etnologia ou o Museu Nacional da Arte Antiga.

Published at NS'211/IN#107, Mercado da Arte (62), (Diário de Notícias N.º 51427 e Jornal de Notícias N.º 236/122), 23 de Janeiro de 2010. Portugal Fachada do Museu do Chiado. Courtesy Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado

Tuesday, 19 January 2010

Tempo Suspenso

A distorção dos princípios clássicos modernos, em particular a célebre expressão «a forma segue a função» é uma das preocupações do discurso de Jane e Louise Wilson (nascidas em 1967, em Newcastle, Inglaterra).

As irmãs gémeas trabalham em conjunto desde os finais da década de oitenta do século passado e utilizam como suporte filmes, vídeos e fotografias para examinar as estruturas do exercício do poder e ideológicas; exploram o tempo suspenso nos espaços com uma ressonância histórica associada às actividades de controlo, de vigilância, do exercício da autoridade.

O corpo do seu trabalho invoca a «arquitectura de morte», na qual se inclui a antiga sede da polícia secreta da ex-República Democrática Alemã (Stasi City, 1997); o contexto britânico durante a Guerra Fria, como a antiga base norte-americana de Greenham Coomon, em Berkshire, palco de inúmeras manifestações contra o armamento nuclear e entretanto desmantelada; ou os bunkers abandonados da extensa fortificação defensiva – a Muralha do Atlântico – criada pelas tropas alemãs durante a Segunda Grande Guerra (Sealander, 2006). Mais recentemente a sua atenção focou-se nos arquivos do cineasta Stanley Kubrick sobre o Holocausto (Unfolding the Aryan Papers, 2009).

Published at NS'210/IN#106, Mercado da Arte (62), (Diário de Notícias N.º 51420 e Jornal de Notícias N.º 229/122), 16 de Janeiro de 2010. Portugal Jane and Louise Wilson, Unfolding the Aryan Papers, 2009 Courtesy Fundação Calouste Gulbenkian

Monday, 18 January 2010

O letreiro de Auschwitz

Debate sobre a apresentação de testemunhos e preservação de provas.

Com impacto global mas de âmbito local, o recente roubo na Polónia de uma relíquia do Holocausto – o letreiro Arbeit Macht Frei (O Trabalho Liberta) à entrada do campo de concentração de Auchwitz I – veio colocar uma questão sobre a preservação e a apresentação da nossa memória: como apresentar «testemunhos» e preservar «provas» a uma sociedade cada vez mais interactiva e conexa com o universo virtual?

A facilidade crescente da sociedade em aceder à informação e contactar com a «realidade», em particular na nova geração de públicos, está a levar esses públicos a escolherem as novas formas de comunicação digital, como a internet, em detrimento dos meios mais tradicionais, como os jornais, revistas ou livros, apesar de continuarem a apresentar um grande interesse pelos conteúdos televisivos e continuarem a alimentarem as interacções sociais no mundo «real».

Um estudo realizado recentemente pela empresa de pesquisa de mercado Forrester sobre os padrões de consumo dos media por parte dos jovens europeus, indica que estes passam, em média, 10,3 horas por semana a ver televisão e 9,1 horas a fazer uso pessoal da internet (excluído o trabalho relacionado com a escola ou a profissão). Todavia, só raramente é que têm contacto com um jornal.

O campo de concentração de Auschwitz-Birkenau é actualmente um museu da memória da humanidade atento à estrutura criada pela Alemanha nazi para o exercício do poder sobre os outros: judeus, ciganos, homossexuais ou prisioneiros de guerra, por exemplo.

Se, por um lado, a substituição de um sinal por um outro concebido posteriormente veio possibilitar o potencial de recriar um momento da história com recurso a uma cópia e, por conseguinte, levantar a questão sobre qual foi a real fundamento do Holocausto, por outro, permite também questionar sobre o objecto de atenção, nomeadamente a preservação de memórias – O Trabalho Liberta – sobre o sistema político e a execução da ideologia conhecida por nacional-socialismo alemão, por oposição ao conhecimento actual geral dessa realidade – as atrocidades cometidas no decurso do exercício do poder. Por outro ainda, reflectir sobre esse momento já extensivamente documentado – o Holocausto – em livros de história, em testemunhos e em relatos na primeira pessoa, leva-nos a interrogar-nos sobre a capacidade de os objectos com um tempo de vida limitado, como são os registos, as roupas, os cabelos, os pertences dos milhões que padeceram, existirem para além da sua qualidade física, se tivermos em consideração que mesmo a nova geração de públicos dá grande importância à interacção com o mundo real.

Published at NS'210/IN#106, Mercado da Arte (62), (Diário de Notícias N.º 51420 e Jornal de Notícias N.º 229/122), 16 de Janeiro de 2010. Portugal Cristina Nuñez, To Hell and Back, on Jewish Holocaust Survivors, 1995 Courtesy the Artist

Tuesday, 12 January 2010

Incentivos locais à criação artística

Durante 2009 o fotógrafo Caio Reisewitz (representante do Brasil na Bienal de Veneza em 2005) percorreu e registou as paisagens da Galiza (Espanha), da fronteira com Portugal sem os compromissos políticos e dogmáticos que encerram muitos discursos estéticos. Através das suas imagens tomamos consciência da nossa convivência com o ambiente natural que nos rodeia.

A colaboração entre o fotógrafo, a Fundación Pedro Barrié de la Maza e a Fundación RAC (Róson Arte Contemporáneo) permitiu estender o resultado às duas cidades da Galiza. Ao apresentar pela primeira vez nas duas fundações, situadas nas cidades de Vigo e Pontevedra, respectivamente, este trabalho contribuiu e enriqueceu a história viva desta região espanhola.

Em 2009 a feira de arte ARCOmadrid atribuiu um dos prémios dedicado aos coleccionadores espanhóis (na categoria institucional) à Fundación RAC pela sua contribuição para o património artístico espanhol.

Esta colecção privada conta com mais de 250 obras de 140 artistas de todo o mundo, e tem como finalidade apoiar a arte e a cultura mediante a realização de projectos artísticos e de actividades que incentivem a criação artística na Galiza.

Published at NS'209/IN#105, Mercado da Arte (62), (Diário de Notícias N.º 51413 e Jornal de Notícias N.º 222/122), 9 de Janeiro de 2010 Portugal Vista da exposição Maracutaia de Caio Reisewitz na Fundación RAC, 2009 Courtesy Fundación RAC

Monday, 11 January 2010

A hora da Galiza

Uma pré-visualização da conjuntura para 2010

Na Galiza (Espanha) comemora este ano o Xacobeo 2010 (festa celebrada sempre que o dia de Santiago calha no domingo). Ao apoiar a realização da feira de arte contemporânea de Vigo (Espanha), Espacio Atlântico (o novo nome pelo qual a feira Pure Art se faz apresentar), a Consellería de Cultura e Turismo do Governo da Galiza encontra uma forma de atrair e apoiar financeiramente a promoção de turismo cultural à região.

Por outro lado, algumas galerias espanholas a participar na feira de Vigo, descontentes com o actual critério de selecção da feira de arte internacional de arte ARCOmadrid, decidiram não estar presentes na feira de Madrid. Desta forma, a feira Espacio Atlántico pode ser e apresenta-se como uma pré-visualização do sucesso comercial das feiras de arte contemporânea de Madrid este ano.

A feira de Vigo realiza-se no recinto ferial IFEVI, entre os dias 14 e 17 de Janeiro de 2010, e para esta sua primeira edição, com a presente denominação, reúne um núcleo de 52 galerias de arte contemporânea originárias da Península Ibérica como: 111, 3+1 Arte Contemporânea, Adhoc, Álvaro Alcázar, Carlos Carvalho, Caroline Pagès Gallery, Fernando Pradilla, Fernando Santos, Filomena Soares, Fúcares, Graça Brandão, Henirich Ehrhardt, Mário Sequeira, Marisa Marimón, MCO Arte Contemporânea, Módulo, Pedro Cera, Pedro Oliveira, Presença, Raquel Ponce, Quadrado Azul, Siboney, Sopro – Projecto de Arte Contemporânea, entre outras.

Paralelamente estão programadas actividades conjuntas com algumas das instituições artísticas mais importantes da Galiza como o Museu de Arte Contemporánea de Vigo – MARCO, Fundación Pedro Barrié de a Maza (Vigo), Fundación RAC (Pontevedra), Colección CABS (Santiago de Compostela).

Apesar das expectativas de sucesso demonstrado pelas galerias participantes portuguesas – bom índice de vendas através da feira – e pela organização – o que é óbvio –, grande parte da comunidade artística local, como instituições e coleccionadores da Galiza – os que vão realizar as compras –, não está tão expectante.

Os fundos disponíveis para compra de obras de arte não são tão abrangentes quanto o desejando pelos negociantes em arte contemporânea, apesar dos duzentos mil euros reservados pela Consellería de Cultura e Turismo do Governo da Galiza para o desenvolvimento de acções conjuntas, com o promotor da feira, a Scarpellini Proyectos S.L., de promoção e difusão da arte e dos artistas galegos nesta edição da feira.

Porém, durante os últimos meses tornou-se mais barato adquirir obras de arte através de leilões do que através de galerias, dado os preços apresentados actualmente serem consideravelmente mais baixos e acessíveis do que comparativamente nas galerias de arte contemporânea, para obras com igual qualidade e importância.

Published at NS'209/IN#105, Mercado da Arte (62), (Diário de Notícias N.º 51413 e Jornal de Notícias N.º 222/122), 9 de Janeiro de 2010 Portugal Ana Vidigal, I wake up in your bed, 2009 Courtesy Galeria 111